Category: Algumas palavras

Eles te dirão que é loucura

Querida,

No meio de toda essa confusão, eu lembrei da primeira vez que ouvi alguém dizer que minha mãe era louca. Foi no começo do processo de separação, quando ela pediu pensão alimentícia para mim. Tinha seis anos na época e ouvi um familiar dizer que era louca. Dizia que ela não sabia o que falava e fazia, portanto não devia ter a minha guarda. E sabe o pior? Eu acreditei.

Por anos acreditei que minha mãe era louca. Por anos nossas brigas eram pontuadas comigo repetindo uma ofensa que me convenceram a acreditar. E, sim, tudo isso causou danos tão profundos no emocional dela que no final eles conseguiram: uma mulher tão machucada e duvidosa de sua própria capacidade que poderia se encaixar no padrão de loucura.

Na história temos mulheres loucas para todos os gostos: quer trabalhar? Interne, ela é louca. Quer votar? Ignore, ela é louca. Quer lutar pelo o seu direito? Por favor mulher, pare de ser doida. Manicômios por anos transbordaram de mulheres internadas por familiares que acreditavam que elas estavam deixando o padrão normal. Uma mulher dócil, em silêncio, conformada com as próprias mazelas e culpada de erros cometidos por terceiros é o que eles querem. Talvez nosso conceito de sanidade esteja realmente atrelado ao que nos foi ensinado sobre loucura e sobre uma pessoa que não silencia.

Agora que eu estou já adulta, percebo que toda vez que minha mãe, e todas mulheres fortes que conheço, lutam por seus direitos. Quando elas buscam seus próprios direitos e o de seus filhos, se tornam automaticamente insanas. Talvez esse seja o argumento mor para desqualificar qualquer pessoa e discurso.

E parece que funciona. Porque todo dia estamos vendo injustiças e horrores por ai.

Enquanto não temos um caso nos jornais de uma mulher morta, uma criança abusada – enquanto não chegamos “as vias de fato”, – é a loucura que impera.

E eles vão te dizer sempre que é isso. Um dia você começa a acreditar, por mais que você tenha certeza sobre o que está fazendo. Mesmo com tudo que a gente vive e as coisas que lemos, por mais que se tenha provas e testemunhas, talvez seja essa a realidade gritante. E ser atacada repetida vezes te faz duvidar.

Nos contam histórias da nossa própria história. Infelizmente, depois de muita luta, por vezes acreditamos neles. Porque milhares já acreditam. Porque é solitário o caminho de se provar sã, de provar a dor, o luto. É solitário provar sempre que estamos certas.

Se a lei nos diz que somos todos inocentes até que se prove o contrário, nossa lei diz que somos todas loucas até que fiquemos em silêncio.

TPM, dor de amor, dor de cotovelo, histeria, falta de sexo, falta de louça, falta de ter o que fazer. Os argumentos se atolam junto de uma longa lista de crimes que acontecem: abuso, agressão, violência psicológica, bullying, ofensa, misoginia.

E eu queria te dizer – mais uma vez – que você não será vítima disso, mas acho que todas nós nos tornamos alvo em algum momento da vida. Essa culpa, essa grande e terrível culpa, nos recaí quando transpomos o silêncio e buscamos justiça.

Chame elas de loucas tantas vezes, até que talvez elas realmente fiquem.

Questione exaustivamente a capacidade, até que o dia em que elas desistam.

Grite com elas tantas vezes, a ponto da violência silenciosa escapar sem que ninguém perceba, sem que ninguém escute.

Crie táticas de silêncio tão poderosos que elas terão medo.

E o melhor conselho que posso te dizer é o mesmo que estou me repetindo nesse momento: acredite na única pessoa que importa. Essa pessoa é você. Vai ser mais difícil do que você imagina.

Essa solidão vai doer, vai te ceifar as forças, mas acredite e lute contra. Não desista. Grandes mudanças só aconteceram porque nós persistimos. Procure ajuda quando não conseguir mais, procure pessoas que te acolham na sua luta.

É tempo de mudança.

Com amor,
Paola.

O fantástico mundo das crianças descabeladas

Raramente busco Helena na escola, já que no nosso acordo quem faz isso é o Marcelo. Todo dia ele leva e busca de bicicleta, mas naquele dia aconteceu uma reunião e fui lá, andando até a escola, atrasada. Meu cabelo é curto, uma confusão entre liso e enrolado, somando que saí sem penteá-lo, chegando lá devia estar uma boa versão da Hebe Camargo.

Helena não é muito diferente, e apesar de ter o cabelo muito escorrido, vive desgrenhado, caindo no olho, com algo grudado na nuca – geralmente é comida que fez a viagem da mão até ali. Enquanto esperava, uma mãe questionava a professora se a filha tinha ido para a escola com o cabelo “bagunçado”. Veja bem, o cabelo dela estava ótimo! Só solto, mas caia em lindos cachos, para nós seria equivalente a arrumar para ir numa festa; só que a mãe ficou muito brava, porque a filha tinha tirado os grampos do cabelo durante o período de aula. Eu entendo da frustração de tentar dar um jeito no cabelo de uma criança e ela correr, gritar, não querer e sair de casa com uma juba fantástica. Essa é a nossa história, até o dia em que desistimos.

Quando peguei Helena, éramos nós duas descabelas e a mãe nos olhou sem jeito, como se nos ofendesse por estar ralhando com a filha sobre os bons modos de ficar com o cabelo arrumado. Sorri, porque já tentei também controlar tudo, inclusive o cabelo da minha filha.

E durante o caminho fiquei pensando muito sobre isso: cabelos. Parece algo bobo, mas já vi pessoas soltarem comentários venenosos por olharem uma criança descabelada ” Mas ué, cadê a mãe dessa criança”. E isso se repete para roupa suja, pé sujo, rosto cheio de comida, água de nariz misturado com baba fazendo aquele colarinho de craca no pescoço. Não negue, você já viu, seu filho já ficou assim e é normal, é um super poder infantil: secreção nasal mega poderosa +10.

Cabelos tem vida, são espontâneos. Enquanto garotos caminham tranquilamente com litros de gel nos cabelos, meninas por vezes ganham quase um buquê na testa, e ninguém sequer questiona se eles gostariam de sair assim. E a questão aqui é: isso é pelo bem estar da criança ou para nós nos sentirmos bons pais? Será que o cuidado mora num penteado complexo?

Houve uma época em que me falaram que devia insistir nas presilhas até ela se acostumar, só que aquilo me causou um baita desconforto, porque ela parecia desconfortável. Devia quebrar a vontade dela até que ela se habituasse ao que eu acho certo ou devia respeitar o fato de minha filha gostar de ficar com o cabelo solto?

Não levanta. Senta igual moçinha. Vem cá, seu cabelo está horrível. Olha, agora você está toda suja. Nossa, o que vão pensar de mim.

É muito peso para uma mãe, e é mais peso ainda para uma criança.

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Eu – Feminista

Nós, pais e mães, temos preocupações em comum, e algumas preocupações bem diferentes um do outro e isso se refere a diferenças de valores socioculturais.

Não recebemos a mesma educação e não somos iguais, então é natural que alguns medos e preocupações se manifestem de modo particular em cada um.

Sou mãe de uma menina de quase sete anos e me preocupo mais com sua formação moral e ética, para consigo e com os outros, do que o modo como se senta, come, fala ou se gosta mais de bolo que de frutas. Não que eu permita que ela se comporte como um filhote de Neanderthal, ou que pense que essa e somente essa é a preocupação de outras mães. Mas já vi muita gente mais preocupada em escolher o sapato que a criança vai usar no dia do que com a forma que ela responde a avó quando leva um puxão de orelha. Já vi pais que acham lindo a criança falar palavrão ou mostrar o dedo do meio e que assistem sem o menor pudor à novela das nove com a criança do lado e estimulam os pequenos a buscar suas latas de cerveja na geladeira. Mães que chamam suas filhas para ajudar na arrumação da casa enquanto o marido e filho assistem futebol e jogam vídeo-game.

Minha filha sempre me viu trabalhar, estudar, me divertir, brigar e pedir desculpas. Foi ao meu trabalho diversas vezes, me acompanhou à faculdade, foi em shows comigo (próprios pra sua idade, logicamente), brigamos e várias vezes eu pedi desculpas à ela por ter me excedido em alguma bronca. Enquanto ela ainda morava comigo, no post Sofia fica com o pai trato um pouco sobre nossa separação, eu lia pra ela sempre na hora de dormir e as vezes inventávamos histórias juntas. E ela fez as mesmas coisas com o pai.

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Querida madrasta

Talvez você não tenha conhecido a realidade de perder tudo que tinha de sólido na vida; de não poder lutar por si mesma, por aquilo que ama, pelas pessoas que te fizeram, criaram e você jurava que iam passar a vida juntas. É frustrante. Às vezes causa raiva.

Em outros momentos é um fôlego, já que nem sempre casamentos terminam com sorrisos. São meses ou anos de brigas, gritos, violências e a angustia de só querer que aquilo melhore. De ver seu pai ou sua mãe triste e não saber como ajudar. O fato de não conhecer outra realidade e de não conseguir gritar por um basta porque você é uma criança. Crianças não falam, não decidem, não querem.

Crianças não destroem casamentos, mas são constantemente culpadas por isso.

Eu te escrevo como a menina que viveu uma separação extremamente conturbada, que viu os pais deixarem de se falar, se humilharem e se ofenderem publicamente. Escrevo como a mãe que sabe que tudo pode mudar e um dia minha filha pode ter no meu lugar outra mulher. Te escrevo agora, aos vinte e dois anos, porque aos dez não pude explicar isso.

E direciono para você, desconhecida, pois agora entendo um pouco mais dessa complexa realidade que chamamos de vida adulta e sei que nós também temos medos e traumas. Que também é novo para uma mulher que irá ocupar o lugar de madrasta toda essa divisão, essa bagagem um tanto desconhecida.

Sabe, geralmente quando os pais estão se separando, os filhos meio que se perdem no processo. Tudo se mistura: dor, perda, aflição e uma mudança radical. São dois caminhos que estavam juntos e ganham rumos diferentes, mas que sempre compartilharam ramificações, pequenas veias que entrelaçam tudo, porque isso é ter filhos. É entender que sua vida jamais será simples como arrumar as malas e partir – mesmo que dê vontade às vezes.

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“Mas ele é da família”

Tem uma rua na cidade de Pindamonhangaba que sempre me traz tristes lembranças. São várias na verdade, mas essa é uma daquelas que toca uma parte muito sensível ainda, porque um dia, ali, me sentei com outras mulheres e esperei minha vez de denunciar uma violência. Um lugar que nunca imaginamos ocupar, até que um dia o rosto está sangrando e alma dói ainda mais, e temos que encarar outros olhos, que geralmente nos acusam ou ignoram a dor, que não estão dispostos a ajudar.

Então quando li o texto no Lugar de Mulher, falando sobre a ineficiência da Delegacia da Mulher, senti uma centelha de coragem de contar algo que me aconteceu já faz quase cinco anos.

Acho que quando falamos sobre velhos fantasmas, e principalmente sobre aqueles que sabemos que também fazem parte da realidade de outras pessoas, é como se isso pudesse trazer força de alguma forma. Existe algo de acolhedor de saber que alguém passou também por aquilo e está bem, e falou sobre isso. Existe uma luz no fim do túnel. Uma solução para não pular da janela. Isso me aconteceu com várias violências, já que muitas vezes parece que minha vida foi a narrativa da história de um carrinho bate-bate que escolheu seu alvo. Mas a verdade é que essa é história semelhante de tantas outras meninas, mulheres, que também foram ceifadas de seus direitos, de respeito e de ocupar seu lugar numa sociedade que vê tais agressões de forma tão comum.

Então, quando um dia subi os degraus da Delegacia da Mulher para prestar queixa contra o meu irmão, já havia chorado tudo que podia ao longo do caminho. Foi algo que me foi impedido por anos, por minha mãe, por meus tios, porque estava proibida de falar sobre, de denunciar as violências que sofria em minha casa.  Porque eles também me agrediam, porque eles deviam estar imunes da justiça por possuírem o mesmo sangue das minhas veias.

Mas a verdade é que esperamos sempre mais da família. Sempre sonhei com o dia que meus progenitores e familiares iriam realmente fazer aquilo que estavam na posição de fazer: me proteger. Mas numa sequência, descobri que nem sempre a família te apoia e te cerca de cuidados quando o mundo já é tão cruel, às vezes, de uma forma mais banal do que acreditamos, é a família que te priva de segurança, de amor, de respeito.

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