Ser mãe não é a melhor coisa sobre você

Parabéns, você está grávida!

Não lembro de ter estipulado planos ou ter vivido um pouco da minha personalidade antes de ouvir essa frase. Engravidar com 15 anos pode ser um inferno já que o mundo vai te mostrar como agora que você não terá um diploma, não terá futuro, não terá nada além de um bebê, o sustento a ser provido e o seu corpo sendo destruído por uma gestação. Sim, é um quadro pintado inúmeras vezes. (e ficará para outro texto)

Na segunda gravidez tinha 20 anos, nenhum emprego, zero diploma, relacionamento pouco estável, família atormentando e uma perspectiva bem menos otimista até. Certamente falhei na vida, engravidei duas vezes antes dos 30 e um emprego numa produtora.

Dois anos depois me separei. Dois anos depois de respirar e viver a maternidade. De ter um blog para minha filha, de inúmeros textos sobre amamentação, não dormir, criar um bebê, filmes infantis, desenhos infantis. Ok, vamos ser mãe, vamos ser MUITO mãe.

Chegou o primeiro fim de semana que passei sozinha após separação, a criança estava com o pai: o que fazer?

Caminhei sozinha pela casa, chorei, não tinha amigos fora os que falavam sobre crianças. Não sabia do que gostava, não sabia quem era a Paola longe da Helena. Percebi que minha timeline, meus momentos, minha vida profissional, tudo girava em torno de ser mãe.

Minha “redenção” havia se tornado isso, me fazendo sentir com algum valor perante o mundo e até minha própria percepção de existência. Antes da Helena estava “perdida”, a maternidade me deu um “rumo”, uma “história” e assim do nada, tive que encarar a pessoa que vivia entre tantas camadas e não gostei muito dela.

Aos poucos comecei a sair, fazer coisas que nunca fiz e notei que gostava muito mais de caminhar sozinha num parque do que ser mãe. Era silencioso, ninguém estava tentando descobrir se minha filha dormia a noite toda e já tinha deixado a fralda. Gostava de conhecer pessoas, flertar no metrô, escrever sobre outros assuntos, acordar todo dia e ir trabalhar. Aos 23 anos descobri que podia ser uma pessoa bem mediana além de mãe.

Descobri que seria uma mãe mil vezes melhor se explorasse quem eu era, porque aquela jovem estava confusa, machucada, reativa e levantava muros para qualquer coisa que não fosse uma discussão num grupo sobre maternidade. Questionei várias coisas, até porque mulheres escrevem apenas sobre maternidade. Que mundo seria esse?

Minha vida ainda era aquilo mas eu não era mais a mesma.

Ser a jovem que sou me afastou de amigos que começaram a estranhar e me julgar como péssima mãe: como assim você não fala mais só sobre a sua filha? E aquelas coisas todas? Bati num novo muro: viver uma vida além da maternidade irá te desqualificar como mãe do ano automaticamente. E se você engravidou jovem, PRECISA ser impecável.

Você precisa bater todas as metas para se autoafirmar numa sociedade que fala que sua maternidade irá valer menos porque você engravidou quando era adolescente, quando não tinha emprego, quando namorava aquele rapaz com nem três meses. Como assim agora você trabalha até tarde? E seu filho? Como assim você está fazendo sexo? E onde a criança dorme?

É difícil assumir assim, escrevendo, falando em voz alta, que gosto mais de ser quem eu sou do que ser mãe.
Amo ser mãe depois que descobri a mulher que posso ser.

Ter um filho numa sociedade tão machista quanto a nossa, que vai te espremer se você for a mãe que faz texto sobre chá de bebê ou só posta foto do seu bebê conhecendo o Pantanal.

Sou mãe, logo existo.

Amo minha filha, amo ter amamentado e vivido dois anos quase exclusivamente com ela. Amo falar exaustivamente sobre a luta diária que é segurar as pontas e levantar essa bandeira. E amo andar sozinha pela rua.

Amo gostar de exposições que não tem nada a ver com maternidade, amo ler livros sobre histórias de pessoas que nunca engravidaram, amo manter um diálogo sem ter que proclamar de cara que tenho uma filha de quatro anos.

E precisamos disso, precisamos ter uma vida além da maternidade para sobreviver a tantas vozes e momentos que te silenciam quanto mulher antes mesmo de você descobrir como fazer funcionar essa vida.

Precisamos ter uma vida além do casal fofo que cria filhos numa casa com quarto montessoriano, que pinta parede de azul Tiffany e é super descolado. Precisamos curtir nossa própria existência antes de viver todo santo dia em devoção perpétua aos nossos filhos.

Existir como mulher precisa ser algo viável sem que você precise ser mulher-mãe, mulher-esposa, mulher-profissional do ano. Sempre um ponto numa longa frase para comprovar nossa existência.

Ser mãe não é a melhor coisa sobre você. Não essa construção de maternidade que mesmo quando tentamos escapar nos pega na esquina, limitando nossa vida seja em ser a mãe desconstruidona ou aquela que comenta todos os posts do grupo de papinhas. São escolhas, e por favor, se escolha.

E sabe como comecei a transformar isso?

Quando me perguntam como estou, falo como estou, não como estou em conjunto com minha filha.

Pequenas mudanças que me fizeram perceber como sou importante. Eu.

Reconheça-se como individuo.

E bem-vinda de volta.

 

PS: não sabemos ainda como será a nova programação desse blog, mas se é pra voltar, voltamos com pé no peito da sociedade. Beijas.

2 Comments

  1. Querida, que texto redentor! Tenho o mesmo sentimento. Amo meus filhos, mas odeio ser obrigada a exercer a maternidade de acordo com parâmetros de uma sociedade misógina que só valoriza a mulher que se torna mãe e abdica de ser tudo o mais que deseje. Poderia adorar a maternidade, desde que eu pusesse escolher como fazê-la, sem julgamento. Quando, enfim, decidi que faria isso, tinha consciência de que haveria julgamentos. Porém, já estava farta e mudei muita coisa. A primeira foi não dar ouvidos a ninguém, já que ninguém levantou à noite para trocar as fraldas dos meus filhos ou ajudou a cuidar deles, nem pagou as nossas contas. Portanto, mandei todos para aquele lugar….E fui fazer coisas que sempre quis, ou seja, ser eu mesma sem o apêndice filial e marital. Agora sou eu, com identidade pessoal. Muitos falaram horrores sobre minhas escolhas, mas fiz ouvidos de mercador. Ninguém nunca levantou a bunda da cadeira para me ajudar a criar meus filhos, então, que se danem. O negócio sou eu, eles e o pai deles. É bem verdade que tive que esperar eles crescerem para mudar minha vida. Em anos passado não havia blogs e internet para abrir possibilidades de contatos, apoio mútuo e ampliar as oportunidades, em todos os sentidos e aspectos. Enfim, agora as mulheres começam a olhar além do jardim da maternidade, maternidade que é compulsória em nossa sociedade. Espero que ela seja questionada e discutida, abrindo espaço para que qualquer mulher possa exercê-la sem que seja sempre culpabilizada porque qualquer coisa. Que as mulheres se amparem mais, amem mais a seus filhos e umas às outras. Que haja mais compaixão, apoio e menos julgamento. Beijos.

  2. voce realmente consegue por com suas palavras o que eu também sento, amo saber que me amo e que
    alem de ser mae sou mulher, tenho desejos que nao só me enquadram no circulo da maternidade. Amo abraçar a minha filha e poder ser para ela tambem seu porto seguro, amo ver como cresce, como ela vai se empoderando de suas qualidades e amo simplemente seu cheiro ,seu jeito, sua face que me lembra muito a minha propria vida como criança, porém quero que ela tambem voo e seja feliz muito feliz.

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