Juventude, maternidade e com quem vai ficar sua filha?

Minha vida profissional realmente prática começou com o nascimento da Helena. Então, comecei a ser uma profissional ao mesmo tempo que comecei a ser mãe, duas tarefas opostas para a sociedade que vivemos. O mercado nos entende como possíveis grandes consumidoras, não como funcionárias altamente capacitadas.

E ter uma criança envolve pagar muitas contas, muitas fraldas, muita pressão, a urgência em dar certo também somou nessa equação. E no geral estamos sozinhas, já saímos de relacionamentos problemáticos e estamos nessa infame tag de “mãe solteira”.

Aprendi a ser profissional, mãe e malabarista ao mesmo tempo me fez pensar que não vivemos num ambiente que conheça o conceito nem o real intento da palavra equidade, mas sim de punição. E a punição vem invisível na mesma proporção do salário baixo. A punição é cultural e aplicada em argumentos repetidos milhões de vezes por milhões de pessoas.
Punimos mulheres por ter filhos apesar de viver numa sociedade que pressiona mulheres a ter filhos, e inclusive criminaliza aquelas que não querem. Vendo isso, espera-se que seja fácil conseguir se inserir no mercado de trabalho, já que temos urgência, mas não, tudo complica. Vamos aceitar propostas quase exploratórias por necessidade, sendo vistas cada vez com menos valor para o mercado já que temos filhos, e filhos ficam doentes, e deixam mulheres menos atraentes [eles dizem]. Para onde correr?

Cargos de liderança? Por favor, é quase impossível conseguir terminar a faculdade às vezes.

Segundo o IBGE, 47.3% das mães entre 14 e 19 anos estudaram uma média de 4 a 7 anos, ou seja, muitas não concluíram os estudos completamente, sendo que 30% delas é economicamente ativa, já estão no mercado de trabalho de alguma forma – mas 56,35% vivem em lares com até 3 salário mínimos. [dados da última amostra, de 2005, aqui]

Das mais de 49 milhões de famílias que vivem no Brasil, 37% é chefiada por mulheres. Somos 51.4% da população. [dados aqui]

Se bem reunidas, poderíamos tomar o poder bem rápido. [fica a dica]

De acordo com uma pesquisa do BID [Branco Interamericano de Desenvolvimento], os homens ganham mais que as mulheres em todas as faixas de idade, níveis de instrução, tipo de emprego ou de empresa.

E nós, sem pesquisas, garantimos que eles escutam bem pouco “Mas com quem vai ficar seu filho?”.

Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Homem fixou o mínimo de condições para que não exista a exploração da mão de obra. Essa revolução ainda não chegou na parte mais populosa dos grandes países: mulheres. Nossa declaração de direitos começa com o direito ao próprio corpo, algo nos negado, para então chegar ao direito de exercer uma profissão com o mínimo de equidade.

Sempre que levanto esses pontos escuto um sonoro “Mas você é tão jovem ainda, vai dar tudo certo!”. Por ser jovem que essas questões me angustiam.  Segundo o Fórum Econômico Mundial, só daqui 80 anos poderei sentir algum tipo de equidade, só que até lá estarei morta e minha filha terá sido criada com todos os problemas financeiros que a falta de oportunidades para mulheres mães causam.

Hoje coloco a cabeça jovem no travesseiro sentindo o peso do mercado que precisa de mim, mas não aceita e continua me rebaixando pelos direitos que o Estado e a organização cultura de nossa sociedade nega.

Nossa técnica de quem pariu Matheus que o embale tem beneficiado somente o discurso tradicional que culpabiliza mulheres, não tem feito nenhum bem à criança, que está li, é um ser de direitos também, nem quem lhe deve embalar, que está cada dia mais sobrecarregada e sem perspectiva.

Então não, ser jovem não nos adiciona nada aqui além de barganhar salários baixos. A maravilha da maternidade não bate na porta de um emprego onde possa escutar que um dia poderia chefiar uma equipe. Porém, gostaria de ressaltar os últimos dados desse texto: a mensalidade escolar em 2017 terá reajuste de 12% a 17%, não temos previsão de números do aumento de creches públicas.  Em 2016 o leite subiu 60%.

A escola pública não ensina inglês, o DIU, pílula e até mesmo camisinha NÃO são métodos seguros para evitar gravidez, homens ainda acham que são heróis por trocar fraldas… Vamos analisar friamente?

Quando nasce uma criança, não nasce o maior amor do mundo, nasce uma grande questão: como irei estudar, trabalhar, ter alguma perspectiva e ensinar meu filho que ao contrário do que a sociedade e o mercado de trabalham demonstram, a mãe dele também é gente?

Aos 16 ouvi que minha filha morrer foi melhor para o meu futuro, aos 20 ouvi que minha filha seria o meu futuro.

Depois dos últimos anos, com uma criança de três anos que já sabe que a mãe trabalha mais do que deveria, como explicar tudo isso? Lutamos por dias onde Helena, Maria, Carol, Júlia não tenha que explicar para uma criança que é necessário dupla jornada e muita briga para conseguir ganhar o mesmo que um homem.

Não é uma questão de amor, é uma questão de existência. Parem de usar o amor como argumento para nos manter aprisionadas. Não queremos amor, queremos salários e direitos para poder amar quem somos e podemos ser.

1 Comment

  1. Como pai solo, me vejo com dificuldades muito parecidas. Numa cidade longe dos avós e uma parceira que nunca aparece nem ajuda financeiramente, tenho que dar piruetas com trabalho. Saí do último por não atender tantos clientes quanto minhas colegas que não tem filhos, mesmo muitas vezes tendo que fazer horas extras (não pagas) com o filho no escritório. Na corrida da meritocracia a gente que tem responsabilidade com crianças largamos no fundão e ainda nos olham torto. Seu caso deve ser mais complicado por ser mulher e o salário ser menor, mas o lance da cobrança do mercado sobre pais/mães conheço bem :-/

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