“A primeira vez que minha filha tentou alcançar o computador no qual trabalhava um apito tocou de forma ensurdecedora em minha mente. Assim como toda mãe, já havia lido os zilhões de estudos que comprovam os malefícios de aparelhos eletrônicos na vida de crianças, mas como profissional do ramo, sabia do outro lado da moeda. Então me vi ali, na linha entre dois extremos, perdida, porque agora era a minha filha, não um estudo de Harvard.

Essa condição de ver tudo do muro me deu uma perspectiva que se baseia em tudo que vi de fantástico na tecnologia, que aliás, fez você ler o que estou escrevendo agora e tudo que sim, pode causar severos problemas.

Mídias interativas, principalmente jogos, são usados em hospitais especializados em autismo e atualmente um jogo brasileiro criado para autistas ganhou o prêmio Cidadania Mundial no concurso Imagine Cup 2014, promovido anualmente pela Microsoft. O Can Game usa de uma mecânica simples para ajudar na avaliação médica de seus pacientes, já que cada resposta ou reação do jogador gera um relatório que é enviado para o profissional competente. Tal como o nome, é um jogo que mostra possibilidades positivas num mundo que pode usar – e usa – tecnologia como algo não só benéfico, mas absolutamente incrível.

Jogos também já são usados como auxílio do empoderamento por parte do aluno e como suporte educacional. O Gamification, termo usado para descrever esse fenômeno, não substituí o professor ou a interação social necessária em sala de aula, é apenas mais uma ferramenta para agregar pontes entre o conhecimento, interesse e reflexão de forma divertida para aquela criança que tem enraizada em si que escola é chata, porque afinal, fomos ensinados assim.

E eu poderia continuar linkando, explicando e mostrando tudo que vejo todo dia, tudo que quero ajudar a desenvolver tanto na educação como nas relações sociais usando a tecnologia, mas isso de nada resulta de forma prática. Para cada artigo positivo para esse assunto, existe outro que mostra porque devemos proibir, inibir ou repudiar o uso de tecnologia para crianças, e até mesmo adolescentes. E também acredito neles, não desqualifico – mais que isso, tento aprender onde moram os limites.”

Essa é a introdução de um texto que fiz para o Movimento Infância Livre de Consumismo em 2014. Tais questões permeiam nossa rotina, já que Helena tem um pai que desenvolve jogos e trabalha com ilustração digital e uma mãe que vive de internet. Pensando nos benefícios, fizemos uma lista de jogos que dialogam sobre a natureza, seja com sua fauna, flora e poderes mágicos.

Todos os jogos aqui recomendados PRECISAM de supervisão de um adulto, seja pela dificuldade, quanto pela interação entre adulto e criança. São jogos que divertem toda a família, com desafios e narrativas completamente diferentes.

Chamamos aqui vocês, pais, tios, família e amigos, para participar da brincadeira. Pegue o controle e aperte o Play.

1. Ori and the Blind Florest [+10]

“A floresta de Nibel está morrendo. Após uma poderosa tempestade que iniciou uma série de eventos devastadores, um improvável herói deve fazer uma jornada para encontrar a sua coragem e confrontar um inimigo sombrio para salvar o seu lar. Ori and the Blind Forestconta a história de um jovem órfão destinado a feitos heroicos através de um jogo de ação e plataforma com um visual impressionante, criado pela Moon Studios para PC. Contando com um trabalho artístico pintado à mão, atuação de personagens meticulosamente animada e uma trilha sonora inteiramente orquestrada, Ori and the Blind Forest explora uma história profundamente emocional sobre amor e sacrifício, além da esperança que existe em todos nós.”

O resumo da Steam passa muito bem sobre o que Ori and the Blind Floreste fala. É um jogo lindo em todos os sentidos, tendo sido um dos destaques do ano tanto em arte, quanto em narrativa. Nele temos uma delicada história que conversa com questões não só heroicas sobre salvar uma floresta, mas na coragem necessária para transpor barreiras.

Você pode adquiri-lo por R$ 36,99 na Steam, plataforma da Valve de jogos para PC. É um jogo que a família inteira pode acompanhar com baldes de pipoca. É verdadeiramente incrível. De tudo que temos aqui, esse é o queridinho. Vale cada centavo.

2. Botanicula [livre]

Esse é um dos jogos mais lindamente bizarros que qualquer pessoa vai jogar. Dos mesmos criadores de Machinarium, outro jogo que recomendo muito para adultos, a Amanita é um estúdio da República Checa pra lá de doido. Com uma arte fora do comum, mundos incríveis e narrativa única, é uma das minhas preferidas.

Botanicula conta a história de cinco personagens: um “galho” meio estranho, um vegetal que lembra muito um pepino japonês marrom, um tipo de cogumelo, um botão de flor e uma pena. Sim, todos possuem uma arte peculiar, algo que engloba todo o jogo, tornando a experiência mais fascinante, tanto para crianças de cinco anos ou adultos de trinta. E esses cinco personagens são extremamente carismáticos mesmo sem falar absolutamente nada.

Eles precisam salvar a última semente da árvore em que vivem, já que ela esta sendo invadida por seres malignos, que seriam algo parecido com aranhas. Sim, tive problemas nessa parte, mas é bem lúdico. O jogo não tem uma narrativa desenhada com diálogos, você cria isso enquanto joga com os elementos que se apresentam.

É um título que você não dá nada de início, mas é realmente fantástico. Sem contar que tem uma trilha sonora completamente fora da caixa: folk da República Checa. Já ouviu?

Nesse blog aqui, Retina Desgastada, tem um texto muito legal falando do jogo. Leiam para mais 🙂

Você pode adquirir para toda a sua família por R$ 16,99 na Steam.

3. Aquaria [+10]

A primeira vez que tentei jogar Aquaria foi terrível. Talvez pela minha completa incompetência na época ou porque o título precisa de um pouco mais de persistência, o fato é que demorou um tanto para conseguir entender o que a saga de Naija, a personagem principal, representava.

É um jogo antigo, de 2007, e feito em 2D. Talvez você pense que por isso é estranho ou arcaico, mas a verdade é que Aquaria vai ser o jogo mais lindo em 2D que já se viu, ainda mais somando que foi feito em 2007. [Aliás, parem de achar que só jogo em 3D é bom ok? É mentira]. Usando música principalmente, e outros poderes que surgem de acordo com o combate que vai chegando, o jogo não possui nada chocante que impeça uma criança menor de ver, mas tirando a experiência que tive, possui dificuldade o suficiente para ser destinado para um público com mais idade.

As criaturas, o cenário do fundo do mar, a narrativa, tudo nos leva para um mundo muito pouco explorado em jogos infantis: o fundo do mar. Apesar de não se caracterizar como jogo infantil, é um título que encanta todas as idades. A história de Naija, que começa o jogo sem memória, fala muito de forma sútil sobre nosso conceito de pertencer no nosso mundo. No início só conseguia lembrar na cancão da Pequena Sereia [ok, sou nonsense fazer o quê].

Você pode adquirir Aquaria por R$ 16,99 na Steam,

4. Okami [+12]

” Okami conta a história da deusa do sol Amaterasu (ou Ammy para os íntimos) e sua luta contra o mal. Tudo começa no Japão Antigo quando Orochi, o dragão de 8 cabeças, aterroriza os moradores da vila Kamiki. Eis que surge a deusa Amaterasu na forma do lobo branco Shiranui patrulhando o vilarejo. No começo, os moradores achavam que o lobo era aliado de Orochi. Até a noite do festival em que o dragão exigiu a donzela Nami como sacrifício. O guerreiro Susano, que era secretamente apaixonado pela jovem, decide desafiar o dragão. Quando o guerreiro está prestes a perder luta aparece Shinanui para protegê-lo e derrotar Orochi. O lobo acaba não sobrevivendo a batalha e é homenageado pelos moradores com uma estátua.

Cem anos depois da grande derrota alguém retira o lacre de Orochi e o liberta. A deusa do sol retorna mais uma vez na pele do lobo branco, dessa vez conta com a ajuda de Issun para lutar contra o mal.” – Retirado do review de Okami no site Garotas Geek.

Nunca joguei Okami, apesar de estar na lista. Mas após a sugestão de uma amiga, li e vi tudo que podia sobre e cheguei à conclusão de que precisava estar aqui. É muito difícil encontrar algum jogo ou filme japonês que não insira questões ambientais e filosóficas em seu enredo. Aqui temos tudo isso, com mais uma abordagem de deuses da natureza e a luta contra o mal.

Para saber mais aconselho a ler o texto completo no Garotas Geek e pirar como nós.

5. Flower [+3]

Imagine que seu ponto de vista é o da pétala de uma flor. Quando vem o vento e leva todas as pétalas pela imensidão, jogando cor, vida e contraste na paisagem. Assim é Flower, um jogo lançado em 2009 em que o protagonismo fica para a sutileza da narrativa que se escreve a medida que nós viajamos com o vento e suas pétalas.

Você controla o vento e com isso vai se inserindo em novos lugares que no fim se fecham numa narrativa que passa muito sobre a sutileza das transformações da natureza em nosso meio. O último cenário é uma cidade, com todas as suas pontas e bicos, pequenos desafios para algo tão sensível quanto uma pétala.

É um jogo pequeno, mas nem por isso menos envolvente e que deixa sua marca sobre a delicadeza da natureza. Você pode encontra-lo para Play Station 3.

6.  From Dust [+12]

Este é um jogo para crianças com mais idade. A recomendação dele oficial é PEGI 12 [ Classificação européia] e ESRB 10 [Classificação norte-americana], então acho legal levar isso em conta na hora de apresentar para uma criança.

É um dos jogos mais legais que já vi com a proposta: nele você brinca de Deus. Numa ilha onde a violência mora nos elementos naturais, vemos como uma pequena civilização tribal primitiva é castigada com a fúria dos elementos. Fúria esta que nos acompanha desde o princípio do nosso mundo.

O papel do jogador é moldar o seu entorno para tentar proteger a tribo, mesmo que infelizmente ninguém esteja a salvo dos caprichos e do ciclo natural da Terra: destruir e construir. From Dust deixa claro já no seu nome que do pó viemos e ao pó retornaremos. É uma ótima reflexão para como impactamos na natureza e como ela retorna seu poder em nossas vidas.

Na Steam você pode encontrar por R$ 19,99.

7. Element4l [+10]

“Element4l é um jogo de plataforma indie experimental, com um forte foco em fluxo e suavidade na jogabilidade, envolto em uma trilha sonora excepcional pela Mind Tree.

Em Element4l, você controla 4 elementos que estão unidos em uma jornada para formar a vida. Seus únicos obstáculos são a Natureza e o Sol. Ele tem uma abordagem diferente e inovadora para jogos de plataforma clássicos e desafia você a reordenar seus reflexos.

Element4l é um desafio. A primeira vez em que jogar, você vai se esforçar… Assim como a primeira vez em que aprendeu a andar de bicicleta.”

Esse é um jogo difícil, mas como descobri na prática: jovens não gostam de jogos fáceis. Já vi crianças de oito anos zerando jogos que eu me pergunto até hoje como faço para finalizar o primeiro chefe. Acho que os benefícios de introduzir um mundo onde elementos batalham pela vida em fases insanas é muito mais positivo do que instigar crianças a ficarem igual zumbis em aplicativos de personagens no celular.

Na balança, Element4l deve ser um momento para a família tentar ultrapassar, para crianças se perguntarem sobre os elementos da natureza e quão complicado pode ter sido criar tudo que vemos hoje.

Você pode adquirir por R$ 16,99 na Steam.

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