Eu – Feminista

Nós, pais e mães, temos preocupações em comum, e algumas preocupações bem diferentes um do outro e isso se refere a diferenças de valores socioculturais.

Não recebemos a mesma educação e não somos iguais, então é natural que alguns medos e preocupações se manifestem de modo particular em cada um.

Sou mãe de uma menina de quase sete anos e me preocupo mais com sua formação moral e ética, para consigo e com os outros, do que o modo como se senta, come, fala ou se gosta mais de bolo que de frutas. Não que eu permita que ela se comporte como um filhote de Neanderthal, ou que pense que essa e somente essa é a preocupação de outras mães. Mas já vi muita gente mais preocupada em escolher o sapato que a criança vai usar no dia do que com a forma que ela responde a avó quando leva um puxão de orelha. Já vi pais que acham lindo a criança falar palavrão ou mostrar o dedo do meio e que assistem sem o menor pudor à novela das nove com a criança do lado e estimulam os pequenos a buscar suas latas de cerveja na geladeira. Mães que chamam suas filhas para ajudar na arrumação da casa enquanto o marido e filho assistem futebol e jogam vídeo-game.

Minha filha sempre me viu trabalhar, estudar, me divertir, brigar e pedir desculpas. Foi ao meu trabalho diversas vezes, me acompanhou à faculdade, foi em shows comigo (próprios pra sua idade, logicamente), brigamos e várias vezes eu pedi desculpas à ela por ter me excedido em alguma bronca. Enquanto ela ainda morava comigo, no post Sofia fica com o pai trato um pouco sobre nossa separação, eu lia pra ela sempre na hora de dormir e as vezes inventávamos histórias juntas. E ela fez as mesmas coisas com o pai.

Sofia sempre gostou de se fantasiar, eu pintava seu rosto as vezes e ela saia pela casa engatinhando, com cara de cachorrinho fazendo au-au por todo canto. Certa vez quis ir pra escola vestida de Superman, ela sempre teve camisetas de herói e é apaixonada pelas histórias. Enfim, voltou pra casa chateada, nenhum garoto quis brincar com ela e a hostilizaram porque era roupa de menino e ela não deveria estar daquele jeito. Ela não queria mais usar roupa de herói.

Várias vezes voltou da escola dizendo que, segundo a professora, meninas tinham que desenhar de lápis rosa e meninos de lápis azul.

Fiz o que acho que toda mãe deveria fazer conversei como ela sobre como as cores são para todos, assim como personagens, profissões, possibilidades e responsabilidades. Pedi para que fosse novamente de herói para a escola, lhe prometi que conversaria com a professora, e com os pais do amiguinhos se fosse necessário, mas que ninguém podia dizer à ela como pode ou não se vestir com o argumento de que ela é uma menina, que isso aconteceria mais vezes e que infelizmente ela precisaria aprender a lidar com isso.

Me dirigi à escola e conversei com a professora sobre o quanto algumas ações estavam equivocadas, que reforçavam um posicionamento submisso da mulher perante a sociedade e uma divisão de gêneros que não deveria existir ali e sim ser rebatida, ela tentou reforçar os estereótipos, mas sequer conseguiu concluir o pensamento.

Minha filha voltou pra casa feliz naquele dia, os meninos brincaram de herói com ela e ninguém lhe disse que ela não poderia fazer algo simplesmente porque não é coisa de menina. Ali eu cumpri o meu dever de mulher e mãe.

Estou num outro relacionamento e grávida novamente, e quando converso com meu atual marido sobre a filha que esperamos percebo que ele tem uma grande preocupação com nossa estabilidade financeira, e se preocupa em poder prover todo o necessário pra nossa família financeira e emocionalmente.

Obviamente, como somos os dois autônomos, eu também me preocupo com isso, mas me preocupo principalmente em ter liberdade de poder decidir na nossa paternidade aquilo que penso ser o melhor pra nossa filha.

Me preocupo com as imposições sociais que fazem com que eu tenha que explicar cada uma das minhas decisões: desde não oferecer chupeta e não promover cama compartilhada à marca de fraldas que escolho.

Ninguém pergunta pro pai da minha filha se ele apoia o parto humanizado , ou se pretende que sua filha seja exclusivamente amamentada até os seis meses de vida. Nós conversamos sobre isso em nossa casa, e concordamos que é assim que queremos que seja, e sabemos que nesse percurso vamos ouvir que meu leite não é suficiente, que fulano com quatro meses já comia frutas, ou que aos cinco meses já comia purê de batatas com arroz e feijão. Mas ele não é questionado sobre a melhor marca de shampoo infantil, ou qual sabão em pó é utilizado em casa. Eu sou.

Homens em geral não carregam essa preocupação, esse peso de como serão vistos socialmente pelas escolhas que fazem pros seus filhos. Se um homem desenvolve decentemente seu papel de pai ele é o Super Pai, nós mulheres apenas fazemos nossa parte.

Então igualmente com a preocupação quanto à estabilidade financeira e emocional que preciso oferecer às minhas filhas, me preocupo em como ensiná-las a serem boas pessoas, não julgar uma mulher pelo comprimento de sua saia ou número de parceiros, não julgar uma pessoa pela cor da pele ou etnia, não desfazer amizades baseado apenas na opinião política do outro e não considerar sua legitimidade religiosa acima de todas as outras.

Crianças nascem puras e livres, conforme crescem recebem de seus pais e sociedade ao redor as amarras que já não pertencem à sua geração e acabam por promover desigualdade social e de gênero.

Crianças são como um livro em branco e nós, mães, pais e a sociedade como um todo, damos forma e cores aos primeiros capítulos, aqueles tão primordiais ao desenrolar de toda história. Sejamos portanto conscientes de nossos papéis de colaboradores, roteiristas e editores garantindo assim aos nossos filhos e filhas a liberdade literária com que tanto sonhamos.

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Micaela Garcia tem  25 anos,  é doida por doces e polêmicas, mãe da Sofia e da Melissa. Historiadora por paixão e quase formação, professora, pesquisadora e escritora. Complicada e perfeitinha.

3 Comments

  1. Estou adorando ler o blog, compartilho com vocês as mesmas idéias em praticamente todos os assuntos!

  2. Isis Rejane Gamboa dos Reis

    6 de dezembro de 2015 at 12:46

    Em muitas coisas somos parecidas, só que no meu “Tempo” de jovem mãe,algumas coisas ainda eram muito arraigadas.Até hoje tento me livrar de algumas ,mas não é fácil.Tem uma que acho, vou morrer com convicção,pois não consigo por mais que tente, que é me preocupar umpouco menos com meus filhos.Eu acredito que mãe , sim tem que pensar sempre, primeiro nos filhos,e ao mesmo tempo,tento deixá-los vivermais independentes..Um me fez conseguir,colocou-me limites em mostrou que SIM É CAPAZ de resolver-se, mas o outro, demonstra nescessidade de proteção adora uma ajuda , e , eu adoro fazer isto,então…Mas como já estou com uma certa idade,…. tenho tentado mudar… Enfim talvez um dia eu consiga. Bjs
    ..

  3. Muito bacana o texto e o blog.
    Fico contente em ler um depoimento como este comentando desta situação em uma escola que de inicio não estava alinhada com princípios feministas, mas aceitou o questionamento.
    Certamente o exemplo é essencial, e não vale tanto falarmos se não agimos de acordo.
    Parabéns pelo trabalho!
    Estarei acompanhando.

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