Querida madrasta

Talvez você não tenha conhecido a realidade de perder tudo que tinha de sólido na vida; de não poder lutar por si mesma, por aquilo que ama, pelas pessoas que te fizeram, criaram e você jurava que iam passar a vida juntas. É frustrante. Às vezes causa raiva.

Em outros momentos é um fôlego, já que nem sempre casamentos terminam com sorrisos. São meses ou anos de brigas, gritos, violências e a angustia de só querer que aquilo melhore. De ver seu pai ou sua mãe triste e não saber como ajudar. O fato de não conhecer outra realidade e de não conseguir gritar por um basta porque você é uma criança. Crianças não falam, não decidem, não querem.

Crianças não destroem casamentos, mas são constantemente culpadas por isso.

Eu te escrevo como a menina que viveu uma separação extremamente conturbada, que viu os pais deixarem de se falar, se humilharem e se ofenderem publicamente. Escrevo como a mãe que sabe que tudo pode mudar e um dia minha filha pode ter no meu lugar outra mulher. Te escrevo agora, aos vinte e dois anos, porque aos dez não pude explicar isso.

E direciono para você, desconhecida, pois agora entendo um pouco mais dessa complexa realidade que chamamos de vida adulta e sei que nós também temos medos e traumas. Que também é novo para uma mulher que irá ocupar o lugar de madrasta toda essa divisão, essa bagagem um tanto desconhecida.

Sabe, geralmente quando os pais estão se separando, os filhos meio que se perdem no processo. Tudo se mistura: dor, perda, aflição e uma mudança radical. São dois caminhos que estavam juntos e ganham rumos diferentes, mas que sempre compartilharam ramificações, pequenas veias que entrelaçam tudo, porque isso é ter filhos. É entender que sua vida jamais será simples como arrumar as malas e partir – mesmo que dê vontade às vezes.

E crianças ficam fragilizadas com isso, se percebem sem referência, com medo, carentes, assustadas por sentar numa mesa que falta um lugar. Tudo que elas conhecem mudam, muitas vezes sem aviso,  e se para nós, super adultos, vale noites insones e lágrimas, imagine para eles. E por mais que passe muito tempo e você venha depois de anos e anos, muitos desses sentimentos permanecem.

Então é provável que quando você chegar, venham dias difíceis, porque toda adaptação possuí seus desafios. Você pode vir a ouvir muitos eu te odeio ou que você não devia ocupar este lugar. Podem ser dias respirando fundo e engolindo lágrimas, porque sim, nós adultos temos sentimentos.

Quando minha filha nasceu, o amor não foi como mágica. Não foi instantâneo. Foi um processo onde conheci quem era aquele novo ser na minha vida, onde me conheci, aprendi a ver meus limites e respeita-los, comecei a entender o choro, a fome e tudo que mora na personalidade da minha filha. E o amor não será imediato para você.

Em filmes e livros a madrasta tem sido um papel de vilã, elas destroem sonhos, abusando fisicamente, humilham e sentem ciúmes, e eu conheci alguém assim. Um dia ela me disse que não era mais essa pessoa, mas minhas lembranças não foram embora. Tem dias que eu ainda acordo com aquele desespero, aquele medo de dez anos atrás. O que fazemos será sempre nossa responsabilidade e isso vai impactar diretamente na vida dos nossos filhos, dos filhos do mundo inteiro. É nossa escolha o que iremos fazer com as situações que se apresentam e por séculos inseriram essa disputa em nosso interior.

Existem dias que dá uma baita vontade de gritar por socorro ou apenas se esconder no banheiro. E tudo bem, você pode fazer.  Tem dias que você vai pensar que tudo está ótimo, perfeito. Assim é a vida. Altos e baixos.

Como mãe, apesar de saber que minha filha vai se machucar, quebrar, chorar e se remendar, faço constantes preces para que ela não sofra muito. Que a vida acalente suas feridas com bondade e que ela tenha a perseverança e resiliência de entender que as boas coisas devem sempre falar mais alto; e o mesmo te falo: em suas mãos está uma pessoa que conhecerá os desafios da vida e que conheceu um pouco sobre perda, então por favor, seja bondosa, paciente e aguarde, o amor virá.

O amor tem uma magia própria e quando deixamos ele ganhar força, não existe nada que fiquei imune ao seu poder de multiplicar. Ele cria pequenos pontos de luz na escuridão. É a mão que um dia vai se estender, é o pedido de ajuda na cozinha e é o sorriso que virá por saber que você também está lá.

Querida madrasta, eu queria te dizer que você terá lindos dias e uma ótima vida, ainda mais agora, que você também possuí um pouco da melhor parte de alguém.

Paola,
Mãe e filha.

4 Comments

  1. Quando encontrei esse título fiquei animada: oba, alguém lembrou das madrastas! Mas encontrei aqui mais um relato do tipo ‘madrasta, sua malvada!’. Entendo seus receios e lembranças, também eu tive madrasta e padrasto. Birrei com eles em alguns momentos e os amei intensamente em outros.
    Hoje sou madrasta de dois meninos, um deles (o menor) mora comigo e nas férias fica com a mãe. O maior faz faculdade e mora em outra cidade. Mas o quero dizer que o meu menino é muito amado, curtido, incentivado! Lemos histórias juntos, fazemos deveres escolares, faço o lanche predileto, chamo a atenção para as coisas que precisa (como as brigas na escola)… Ele não me chama de mãe e nem assim espero. Temos apelidos carinhosos que sinalizam nosso amor. Todos os processos que as maẽs vivem na aprendizagem de ser mãe, eu passei com esse garoto esperto, ranzinza, sapeca, amoroso. No entanto vivi outras coisas, as mães nunca saberão o que é ser madrasta, amar e cuidar e ser excluída das coisas: não poder assinar a matrícula da natação, não poder ir assistir a um filme sem o pai, resolver as coisas e sempre esperar o ok “correto” para que assim seja… Sou bolada com os livros de histórias sobre as madrastas. Meu menino se assustou como soube que eu era a sua madrasta. Um dia acabo com isso e escrevo uma história, mais bonita e mais humana. E os irmãos Andersen que se cuidem. Um cheiro!

  2. Muito legal!
    Não sou madrasta, mas em breve minha menina deve conhecer uma.
    Espero que ela seja uma pessoa lúcida e amorosa como voce.
    Pois se eu que sou mãe as vezes perco a paciencia, espero que essa pessoa seja muito mais paciente do que eu!

  3. eu tambem nao gosto desse nome madrasta, eu sou uma madrasta boa meu entiado me adora e eu sou apaixonada por ele e meu anjinho, e eu tambem queria um nome carinhoso para ele me chamar.

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