Nós, dois computadores, um bebê e a decisão de trabalhar em casa

Se alguém chegar aqui em casa agora, vai me ver na mesa da cozinha digitando furiosamente e Marcelo na mesa dele, ilustrando ou em reunião. E muita gente acha estranho, mas é assim que trabalhamos. Não foi uma escolha fácil, na verdade, foi muito difícil escolher ficar em casa e seguir outro ritmo de trabalho. Dar adeus a segurança de um salário fixo, horas de trabalho por dia exatos, plano de saúde e todo final de semana livre.

Quando engravidei de Helena, estava trabalhando num shopping. Ficava mais de dez horas em pé por dia, trabalhava aos finais de semana, não conseguia escrever porque não me sentia bem e não tinha perspectiva de vida. Marcelo estava com a empresa dele de jogos, a TawStudio, e estava tudo bem. Eles tinham terminado de publicar um novo jogo e estavam repaginando o primeiro título, existia grande satisfação, mas não muito dinheiro.

Talvez, antes de mais nada, seja importante ressaltar que se você for trabalhar na área criativa no Brasil, irá encontrar algumas pedras enormes no meio do caminho. Primeiro, as pessoas não vêem ilustrador, escritor, resenhista e por aí vai, como alguém que trabalha. Foram inúmeras as vezes que disse o que fazia e ouvi um “ah, que bacana, agora me fala: você trabalha em quê?”. Eles estão acostumados na minha região a encarar engenheiro, administrador, médico e comerciante como algo sério, o que fazemos é uma extensão da adolescência. Não é permitido sonhar, apenas pagar.

Mas quando chega um bebê nós nos vemos frente a frente com um problema normal na vida adulta: dinheiro. Nós não tínhamos nada e em 5 meses tínhamos um aluguel, móveis, contas e uma sequência de coisas que nunca nos pertenceu totalmente. Só fui descobrir quão caro era uma compra mensal de alimentos quando tive que comparar o preço do arroz. Era absurdo!

E nessa época eu estava desempregada, havia saído daquele trabalho por alguns abusos quando descobriram minha gravidez e Marcelo começou a dar aulas, fazer freelas, o que fosse, nós tínhamos que conseguir x valor no fim do mês ou ia faltar algo.

Muitas pessoas que eu conheço passam por isso sem filhos, já que esses chegam depois que tudo está estabilizado, mas infelizmente nem tudo segue nossos planos e a gravidez acontece quando menos esperamos para muitas pessoas. Então, nós tentamos fazer o melhor com o que tínhamos.

Nesse dia Helena não tinha parado de mamar e chorar a madrugada inteira. De  tarde eu dormi e Marcelo ficou com ela - trabalhando.

Nesse dia Helena não tinha parado de mamar e chorar a madrugada inteira. De tarde eu dormi e Marcelo ficou com ela – trabalhando.

Nossa primeira “casa” foi uma kitnet de dois cômodos. Era um mezanino com nossa cama, mesa de trabalho, berço, cômoda e tudo que podia ter naquele lugar apertado. Não tínhamos TV, só dois computadores que precisavam ir pro lixo rápido. A cozinha era do tamanho do banheiro e por muito tempo lavamos as primeiras roupas da Helena na mão.

E sou imensamente orgulhosa dessa história, desses apuros, das noites insones com Helena chorando, comigo chorando, com Marcelo meio desesperado, porque foi isso que nos fez perceber que valia a pena. Ali nascia meu primeiro texto, meu primeiro trabalho escrevendo. Era Helena mamando numa mão e a outra digitando num computador na estante que era da TV.

Ali nós tomamos decisões importantes e que mudariam o resto nossa percepção sobre estabilidade e realização profissional. Ali chorei pela primeira vez tantas perdas e reconheci as conquistas.

Em poucos metros quadrados aprendi o que é otimismo e esperança.

Na kitnet. Helena ficava revesando nos colos enquanto trabalhávamos.

Na kitnet. Helena ficava revezando nos colos enquanto trabalhávamos.

 

Daquela kitnet até hoje, muita coisa aconteceu. Mudamos de casa três vezes, duas vezes de cidade, tivemos carro, vendemos carro, compramos coisas, doamos coisas, jogamos fora um quantidade incrível de preconceitos e escolhas.

Helena ficou conosco em casa até completar 11 meses, que foi quando já não conseguíamos fazer tudo com ela. Morávamos numa cidade sem ninguém, toda a família estava na nossa cidade natal e ela foi ficando cada vez mais sedenta por mais pessoas, por mais crianças. Quando chamaram na creche foi um misto de alegria, alívio e culpa.

O problema da culpa é que ela geralmente é implantada por opiniões que não vivem uma realidade igual a nossa. Queria ficar com ela em casa até os cinco anos, mas talvez uma das maiores lições entre conciliar vida profissional, sonho e filhos, seja perceber que você tem que descobrir o que funciona para você. Só você. Não para o vizinho, a blogueira, a tia, a avó, a mãe, você sabe até onde consegue, quer e pode ir.

E Helena foi para a cheche e foi imensamente feliz e nós começamos a trabalhar mais. Sempre que ela tem algo, nós encerramos tudo e ficamos com ela. Temos essa liberdade de organizar nossa própria rotina. De poder fazer viagens fora de hora, de poder ficar até mais tarde, de correr quando algo acontece.

Selfie durante reuniões. Os clientes não sabem, mas temos!

Selfie durante reuniões. 

Se por um lado é terrível, já que às vezes trabalho das 9 as 17 horas e depois das 22 horas às 3 da manhã, tem dias que posso não trabalhar e só ficar vendo filmes e brincando com Helena.

E o melhor: fazemos isso em equipe. Eu e Marcelo somos uma dupla. Ninguém faz nada sozinho, ninguém cuida de ninguém sozinho. Ele dá banho, comida, leva na escola, penteia cabelo e monta looks, provavelmente troca mais fraldas do que eu. Tem dias que o trabalho é mais pesado para ele e eu assumo as rédeas. Tem dias que é o contrário, tenho que viajar, ficar fora e ele assume por aqui.

E a melhor decisão foi quando eu aceitei os sonhos e planos dele e vice e versa. Nós decidimos trabalhar juntos. Ele ilustra e cuida do design, eu escrevo, planejo e faço a frente comercial. Nós começamos a fazer tirinhas, produzir conteúdo sobre infância e maternidade, investimos tempo nesse blog, começamos a encarar nossos clientes de outra forma: pessoas, não só empresas.

Tem dias que tudo dá errado. Junta louça na pia, a roupa fica na máquina, Helena rabisca o chão da sala, não conseguimos produzir nada… Caos, chuva, trovões e pais doidos. Numa frequência um tanto preocupante, mas normal para o começo, nós ficamos sem clientes, o saldo caí e nós começamos a suar frio. Mas nisso nós conhecemos a estabilidade.

8949_777861712249252_8160717425858871647_n

🙂

 

Já não ligamos tanto se a casa vai estar um brilho. Helena não saí impecável. Na verdade, todos nós estamos num ritmo de calça jeans, tênis, camiseta e algumas bugigangas de tira colo. Começamos a aproveitar os pequenos momentos diários.

Estabilidade não é financeira ou profissional, é a estabilidade emocional de conseguir entender que nada está no nosso controle.

Se fosse funcionária e ele também, um dia poderíamos ser mandados embora sem imaginar. Podíamos trabalhar ainda mais por algo que não é nosso. Seríamos infelizes se fosse fazendo algo que não gostamos e no fim Helena iria aprender isso: vale sacrificar os sonhos por dinheiro.

Só que não vale. Isso está errado!

Chega um dia que você deve colocar na balança se o “padrão de vida” vale a tristeza de sair todo dia da cama e fazer algo que odeia. Se isso está valendo ficar longe de quem importa.

Eu sei que isso não funciona para muitas pessoas e eu sou privilegiada em tantos aspectos, então não é um texto sobre você deixar o trabalho que lhe garante a vida e ir viver de sonhos, mas de pensar o seu conceito de dinheiro, estabilidade, planos e como isso impacta na criação de nossos filhos.

Um dia vou falar mais da rotina em casa e de várias soluções doidas que encontramos para organizar o caos criativo que é essa família, mas hoje eu realmente queria contar um pouco sobre isso.

Como uma neurótica por controle e estabilidade encontrou alguém incrível, engravidou, ficou sem nada, foi morar numa casa quente e pequena numa cidade com 7 mil habitantes e ali aprendeu que o bonito da vida é deixar respirar. É chorar, sentir, criar e todo dia ter certeza que está tudo bem.

O caos também pode ser de uma beleza estável.

3 Comments

  1. Amei 😀

  2. Que bacana! Muito bom saber que não é só aqui em casa que estamos em um eterno caos! Este post me aparece bem no momento que estou me fazendo estes questionamentos! Saber que existe soluçoes diferentes do convencional me ajuda a tomar mais coragem para fazer o que queria e não o que esperam que eu faça! 🙂

Deixe uma resposta

© 2017 Não pule da janela

Theme by Anders NorenUp ↑