Month: abril 2015

O fantástico mundo das crianças descabeladas

Raramente busco Helena na escola, já que no nosso acordo quem faz isso é o Marcelo. Todo dia ele leva e busca de bicicleta, mas naquele dia aconteceu uma reunião e fui lá, andando até a escola, atrasada. Meu cabelo é curto, uma confusão entre liso e enrolado, somando que saí sem penteá-lo, chegando lá devia estar uma boa versão da Hebe Camargo.

Helena não é muito diferente, e apesar de ter o cabelo muito escorrido, vive desgrenhado, caindo no olho, com algo grudado na nuca – geralmente é comida que fez a viagem da mão até ali. Enquanto esperava, uma mãe questionava a professora se a filha tinha ido para a escola com o cabelo “bagunçado”. Veja bem, o cabelo dela estava ótimo! Só solto, mas caia em lindos cachos, para nós seria equivalente a arrumar para ir numa festa; só que a mãe ficou muito brava, porque a filha tinha tirado os grampos do cabelo durante o período de aula. Eu entendo da frustração de tentar dar um jeito no cabelo de uma criança e ela correr, gritar, não querer e sair de casa com uma juba fantástica. Essa é a nossa história, até o dia em que desistimos.

Quando peguei Helena, éramos nós duas descabelas e a mãe nos olhou sem jeito, como se nos ofendesse por estar ralhando com a filha sobre os bons modos de ficar com o cabelo arrumado. Sorri, porque já tentei também controlar tudo, inclusive o cabelo da minha filha.

E durante o caminho fiquei pensando muito sobre isso: cabelos. Parece algo bobo, mas já vi pessoas soltarem comentários venenosos por olharem uma criança descabelada ” Mas ué, cadê a mãe dessa criança”. E isso se repete para roupa suja, pé sujo, rosto cheio de comida, água de nariz misturado com baba fazendo aquele colarinho de craca no pescoço. Não negue, você já viu, seu filho já ficou assim e é normal, é um super poder infantil: secreção nasal mega poderosa +10.

Cabelos tem vida, são espontâneos. Enquanto garotos caminham tranquilamente com litros de gel nos cabelos, meninas por vezes ganham quase um buquê na testa, e ninguém sequer questiona se eles gostariam de sair assim. E a questão aqui é: isso é pelo bem estar da criança ou para nós nos sentirmos bons pais? Será que o cuidado mora num penteado complexo?

Houve uma época em que me falaram que devia insistir nas presilhas até ela se acostumar, só que aquilo me causou um baita desconforto, porque ela parecia desconfortável. Devia quebrar a vontade dela até que ela se habituasse ao que eu acho certo ou devia respeitar o fato de minha filha gostar de ficar com o cabelo solto?

Não levanta. Senta igual moçinha. Vem cá, seu cabelo está horrível. Olha, agora você está toda suja. Nossa, o que vão pensar de mim.

É muito peso para uma mãe, e é mais peso ainda para uma criança.

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Eu – Feminista

Nós, pais e mães, temos preocupações em comum, e algumas preocupações bem diferentes um do outro e isso se refere a diferenças de valores socioculturais.

Não recebemos a mesma educação e não somos iguais, então é natural que alguns medos e preocupações se manifestem de modo particular em cada um.

Sou mãe de uma menina de quase sete anos e me preocupo mais com sua formação moral e ética, para consigo e com os outros, do que o modo como se senta, come, fala ou se gosta mais de bolo que de frutas. Não que eu permita que ela se comporte como um filhote de Neanderthal, ou que pense que essa e somente essa é a preocupação de outras mães. Mas já vi muita gente mais preocupada em escolher o sapato que a criança vai usar no dia do que com a forma que ela responde a avó quando leva um puxão de orelha. Já vi pais que acham lindo a criança falar palavrão ou mostrar o dedo do meio e que assistem sem o menor pudor à novela das nove com a criança do lado e estimulam os pequenos a buscar suas latas de cerveja na geladeira. Mães que chamam suas filhas para ajudar na arrumação da casa enquanto o marido e filho assistem futebol e jogam vídeo-game.

Minha filha sempre me viu trabalhar, estudar, me divertir, brigar e pedir desculpas. Foi ao meu trabalho diversas vezes, me acompanhou à faculdade, foi em shows comigo (próprios pra sua idade, logicamente), brigamos e várias vezes eu pedi desculpas à ela por ter me excedido em alguma bronca. Enquanto ela ainda morava comigo, no post Sofia fica com o pai trato um pouco sobre nossa separação, eu lia pra ela sempre na hora de dormir e as vezes inventávamos histórias juntas. E ela fez as mesmas coisas com o pai.

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7 filmes infantis que abordam consciência e conservação ambiental

Acho que essa lista é essencial para crianças, mas diz muito sobre adultos. Diz muito sobre o mundo em que vivemos e nossa intensiva campanha em destruí-lo. Narra com histórias lúdicas o obvio: sem natureza, como sobreviver? E temos em doses divertidas e sensíveis a ilustração de quão contraditório e cego pode ser o ser humano, destruindo vida em busca de uma “vida melhor”.

Então antes de adentrar em qualquer assunto, como sempre, aconselho que você reserve uma tarde, faça algo gostoso para comer e sente com seu filho para ver algum destes títulos. Mais importante que apresentar lições e conteúdo de qualidade para crianças, dar o exemplo tem sido o melhor dos métodos.

Não basta apenas falar “Preservar o meio ambiente é importante, queridx, por favor, veja esse filme”, é necessário inserir o hábito da conservação e restauração do meio ambiente em nossa rotina. Como garantir um futuro melhor para nossos filhos? Mostrando na prática que a mudança é possível. Sim, podemos transformar nossas práticas em algo positivo.

Temos aqui lindas imagens, com animais, árvores, aventuras e a maior lição de todas: precisamos valorizar a vida, e não só a nossa.

E muito me espanta que num país que possuí a maior área da Floresta Amazônica, tribos intocadas e uma diversidade de fauna e flora de colocar continentes no chão, se produza tão pouco conteúdo infantil abordando tais temas. Alô indústria! Vamos falar de coisa boa, vamos falar de meio ambiente!

Então segue mais uma lista da nossa coluna semanal #conteúdodequalidade. Boa diversão 🙂

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9 projetos que estimulam mulheres a amarem o próprio corpo

O problema do Photoshop em fotos é que ele vende uma ideia completamente mentirosa da realidade e ao invés das marcas apenas descartarem isso, por se tratar de uma mentira, não! Eles impõe absurdos desde cedo para meninas, forçando a crença de um corpo que não é nem de longe perfeito, pois não existe. O preço pela beleza impecável, além de ser uma pressão social insana e com vírgulas e vírgulas de machismo, transforma mulheres cheias de vida em sombras diminuídas por capas de revistas e cobranças diárias.

Quem nunca se viu desesperada por perder aqueles quilinhos? Principalmente depois de uma gravidez, quando todos te olham com a expectativa de que você volte a usar as roupas de antes. Ou quando você descobre com estrias e sente que mesmo usando roupas o mundo vai ver aquelas marcas que só denotam como você se transformou, e isso é positivo, na verdade.

“Nossa, você emagreceu!” – ainda acreditam que esse é o ápice dos elogios, mas não, o ápice dos elogios é: Nossa, como você está feliz consigo mesma.

E tenhamos esperança, esse cenário está mudando. Toda semana me deparo com projetos que empoderam e aceitam mulheres como são. Então compartilho com vocês os 10 projetos que mais me emocionaram e me fizeram crer que estamos recobrando a noção daquilo que é verdadeiramente importante.

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“Strong Is The New Pretty” mãe registra poderosas fotos de suas filhas

Kate Parker é uma mãe e fotógrafa de Atlanta, Georgia, e tem causado suspiros por aqui com seus ensaios fotográficos que mostram meninas em momentos descontraídos, fazendo o que amam, sem se importar com preconceito ou esteriótipos.

Suas duas filhas Ella e Alice, de 9 e 6 anos, são retratadas no ensaio “Strong is The New Pretty” com completa honestidade e sensibilidade.

“Eu queria que esta série de imagens mostrasse sua ousadia, sua força e a beleza em si, como são,” explica Kate.Minhas meninas sabem que elas são simplesmente perfeitas. Elas mesmas, aventureiras, frustradas, felizes, altas, atléticas, cruéis, engraçadas. Elas não precisam ter o cabelo arrumado, roupas combinando, ou até mesmo estarem limpas para serem amadas ou aceitas. Ser forte é o novo bonito.”

 

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Querida madrasta

Talvez você não tenha conhecido a realidade de perder tudo que tinha de sólido na vida; de não poder lutar por si mesma, por aquilo que ama, pelas pessoas que te fizeram, criaram e você jurava que iam passar a vida juntas. É frustrante. Às vezes causa raiva.

Em outros momentos é um fôlego, já que nem sempre casamentos terminam com sorrisos. São meses ou anos de brigas, gritos, violências e a angustia de só querer que aquilo melhore. De ver seu pai ou sua mãe triste e não saber como ajudar. O fato de não conhecer outra realidade e de não conseguir gritar por um basta porque você é uma criança. Crianças não falam, não decidem, não querem.

Crianças não destroem casamentos, mas são constantemente culpadas por isso.

Eu te escrevo como a menina que viveu uma separação extremamente conturbada, que viu os pais deixarem de se falar, se humilharem e se ofenderem publicamente. Escrevo como a mãe que sabe que tudo pode mudar e um dia minha filha pode ter no meu lugar outra mulher. Te escrevo agora, aos vinte e dois anos, porque aos dez não pude explicar isso.

E direciono para você, desconhecida, pois agora entendo um pouco mais dessa complexa realidade que chamamos de vida adulta e sei que nós também temos medos e traumas. Que também é novo para uma mulher que irá ocupar o lugar de madrasta toda essa divisão, essa bagagem um tanto desconhecida.

Sabe, geralmente quando os pais estão se separando, os filhos meio que se perdem no processo. Tudo se mistura: dor, perda, aflição e uma mudança radical. São dois caminhos que estavam juntos e ganham rumos diferentes, mas que sempre compartilharam ramificações, pequenas veias que entrelaçam tudo, porque isso é ter filhos. É entender que sua vida jamais será simples como arrumar as malas e partir – mesmo que dê vontade às vezes.

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Bruxa Carolina: livro infantil interativo te convida a ficar offline

Bruxa Carolinabruxamockup2 é um livro/aplicativo que exige que o leitor interaja com a história, não só passando as telas, mas acionando diferentes objetos que vão “criar vida” através de animações, convidando crianças a explorarem outras formas de diálogo tanto dentro do livro, quanto fora dele.

Na história, nossa Bruxa que se chama Carolina está um tanto frustrada já que não consegue mais assustar crianças; devido ao uso excessivo de tablets, celulares, computadores e TVs, as crianças tem se interessado cada dia menos pelo convívio com outras pessoas ou a magia das histórias.

O aplicativo para smartphones e tablets usa de ilustrações, música, narração e animações, abrindo espaço para que crianças e adultos entendam o mundo da Bruxa Carolina e a importância de também desligar tais dispositivos e ir curtir a vida.

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Beatriz, design e animadora do projeto conta que “Com esse livro queremos fomentar a consciência crítica a respeito do uso de tecnologias por parte das crianças, ao mesmo tempo que lembrá-las das outras coisas ‘mágicas’ que acontecem fora das telas. Estamos vivendo um tempo em que é questionável o uso excessivo da tecnologia por parte das crianças, mas percebemos que cada vez torna-se mais difícil afasta-las das telas, então a nossa proposta é que levemos mais conhecimento e leitura para elas por esses meios”.

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Nós, dois computadores, um bebê e a decisão de trabalhar em casa

Se alguém chegar aqui em casa agora, vai me ver na mesa da cozinha digitando furiosamente e Marcelo na mesa dele, ilustrando ou em reunião. E muita gente acha estranho, mas é assim que trabalhamos. Não foi uma escolha fácil, na verdade, foi muito difícil escolher ficar em casa e seguir outro ritmo de trabalho. Dar adeus a segurança de um salário fixo, horas de trabalho por dia exatos, plano de saúde e todo final de semana livre.

Quando engravidei de Helena, estava trabalhando num shopping. Ficava mais de dez horas em pé por dia, trabalhava aos finais de semana, não conseguia escrever porque não me sentia bem e não tinha perspectiva de vida. Marcelo estava com a empresa dele de jogos, a TawStudio, e estava tudo bem. Eles tinham terminado de publicar um novo jogo e estavam repaginando o primeiro título, existia grande satisfação, mas não muito dinheiro.

Talvez, antes de mais nada, seja importante ressaltar que se você for trabalhar na área criativa no Brasil, irá encontrar algumas pedras enormes no meio do caminho. Primeiro, as pessoas não vêem ilustrador, escritor, resenhista e por aí vai, como alguém que trabalha. Foram inúmeras as vezes que disse o que fazia e ouvi um “ah, que bacana, agora me fala: você trabalha em quê?”. Eles estão acostumados na minha região a encarar engenheiro, administrador, médico e comerciante como algo sério, o que fazemos é uma extensão da adolescência. Não é permitido sonhar, apenas pagar.

Mas quando chega um bebê nós nos vemos frente a frente com um problema normal na vida adulta: dinheiro. Nós não tínhamos nada e em 5 meses tínhamos um aluguel, móveis, contas e uma sequência de coisas que nunca nos pertenceu totalmente. Só fui descobrir quão caro era uma compra mensal de alimentos quando tive que comparar o preço do arroz. Era absurdo!

E nessa época eu estava desempregada, havia saído daquele trabalho por alguns abusos quando descobriram minha gravidez e Marcelo começou a dar aulas, fazer freelas, o que fosse, nós tínhamos que conseguir x valor no fim do mês ou ia faltar algo.

Muitas pessoas que eu conheço passam por isso sem filhos, já que esses chegam depois que tudo está estabilizado, mas infelizmente nem tudo segue nossos planos e a gravidez acontece quando menos esperamos para muitas pessoas. Então, nós tentamos fazer o melhor com o que tínhamos.

Nesse dia Helena não tinha parado de mamar e chorar a madrugada inteira. De  tarde eu dormi e Marcelo ficou com ela - trabalhando.

Nesse dia Helena não tinha parado de mamar e chorar a madrugada inteira. De tarde eu dormi e Marcelo ficou com ela – trabalhando.

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