“Mas ele é da família”

Tem uma rua na cidade de Pindamonhangaba que sempre me traz tristes lembranças. São várias na verdade, mas essa é uma daquelas que toca uma parte muito sensível ainda, porque um dia, ali, me sentei com outras mulheres e esperei minha vez de denunciar uma violência. Um lugar que nunca imaginamos ocupar, até que um dia o rosto está sangrando e alma dói ainda mais, e temos que encarar outros olhos, que geralmente nos acusam ou ignoram a dor, que não estão dispostos a ajudar.

Então quando li o texto no Lugar de Mulher, falando sobre a ineficiência da Delegacia da Mulher, senti uma centelha de coragem de contar algo que me aconteceu já faz quase cinco anos.

Acho que quando falamos sobre velhos fantasmas, e principalmente sobre aqueles que sabemos que também fazem parte da realidade de outras pessoas, é como se isso pudesse trazer força de alguma forma. Existe algo de acolhedor de saber que alguém passou também por aquilo e está bem, e falou sobre isso. Existe uma luz no fim do túnel. Uma solução para não pular da janela. Isso me aconteceu com várias violências, já que muitas vezes parece que minha vida foi a narrativa da história de um carrinho bate-bate que escolheu seu alvo. Mas a verdade é que essa é história semelhante de tantas outras meninas, mulheres, que também foram ceifadas de seus direitos, de respeito e de ocupar seu lugar numa sociedade que vê tais agressões de forma tão comum.

Então, quando um dia subi os degraus da Delegacia da Mulher para prestar queixa contra o meu irmão, já havia chorado tudo que podia ao longo do caminho. Foi algo que me foi impedido por anos, por minha mãe, por meus tios, porque estava proibida de falar sobre, de denunciar as violências que sofria em minha casa.  Porque eles também me agrediam, porque eles deviam estar imunes da justiça por possuírem o mesmo sangue das minhas veias.

Mas a verdade é que esperamos sempre mais da família. Sempre sonhei com o dia que meus progenitores e familiares iriam realmente fazer aquilo que estavam na posição de fazer: me proteger. Mas numa sequência, descobri que nem sempre a família te apoia e te cerca de cuidados quando o mundo já é tão cruel, às vezes, de uma forma mais banal do que acreditamos, é a família que te priva de segurança, de amor, de respeito.

Por anos fui alvo dos socos, dos chutes e das humilhações que vinham de meu irmão. Fui expulsa de casa por motivos que nunca descobri. Usava roupas escuras e compridas num sol infernal para esconder os hematomas. Realmente acreditava que era culpada por aquilo, que meu irmão estava correto em jogar suas frustrações em mim, pois era da família. Afinal, família serve para isso, não?

Vi os amigos dele e todos reconhecerem sua bravura por mudança, por ter saído das situações que a vida lhe impôs, sabendo que em casa era diferente. E eu entendo uma parte, porque sei que ele também carrega seus demônios, mas isso não justifica. Naquela casa ele jogava em nós sua fúria. E nas poucas vezes que contei essa história, as pessoas que ouviam ficavam constrangidas, desconversavam ou apenas não acreditavam. Como podia aquele moço tão simpático fazer algo assim?

Das vezes que gritei em lágrimas que iria na delegacia denunciar aquilo, ouvi risadas, porque ninguém iria acreditar, ele era meu irmão. E como já havia sentido na pele a completa falta de tato e apoio do Conselho Tutelar por tantos anos, apenas encarei aquilo como algo que devia ser vivido. Inventei mentiras, tive medo de ter pessoas próximas, medo de um dia ser abandonada. Mas percebi que olhava outras meninas e ficava sempre me perguntando se elas também eram espancadas e humilhadas em casa. Se chamavam elas de estouradas e feias, se elas também escondiam hematomas por baixo do vestido, se aquele sorriso escondia lágrimas. Com o tempo, desconfiei de todos, e principalmente de mim mesma.

Um dia foi pior que todos, ele realmente conseguiu me machucar de forma séria. Depois de sair do hospital, segurei o fôlego e fui para a Delegacia da Mulher. Moraria na rua, faria o que fosse, mas aquilo que não iria se repetir. Estava exausta.

E quando cheguei lá, havia outras mulheres sentadas no banco de espera, todas machucadas, com crianças de colo que choravam por consolo.

No fim, saí de lá sem prestar queixa. Motivo? Fui convencida de não fazer isso. A mulher que me atendeu me perguntou sete vezes se realmente iria fazer aquilo com meu irmão. “Mas ele é da família, você entende que ele vai ser chamado por isso, né? Isso vai ficar na ficha dele…”.

Por ser da família, todos os dias, homens são absolvidos dos abusos que comentem contra mulheres, como se elas não tivessem o direito de gritar por socorro por isso.

O mesmo aconteceu quando pedi ajuda com a minha mãe. Quando gritei para meus vizinhos me ajudarem porque meu irmão estava batendo nela. Quando denunciei minha madrasta quando tinha treze anos. Do porque de jamais ter falado sobre isso.

Com o tempo perdi a fé no sistema. Aquelas pessoas deviam me ouvir, apoiar, fazer justiça contra quem me machucou, mas eles me convenciam a não falar sobre, me olhavam como coitada e aos poucos me convenceram também que o silêncio deve ser meu melhor amigo.

Sou eu, a moça na fila do pão, a dona de uma grande agência, a menina da pré escola num bairro violento, todas nós infelizmente fazemos parte das estatísticas ou iremos fazer. Segundo a ONU, uma em cada cinco mulheres no Planeta Terra terá sido vítima de violência durante a vida. E não importa se é teu pai, irmão, vizinho, desconhecido. Se é alguém que você ama ou amou: a culpa não é sua.

A culpa não é sua.
A culpa não é sua.
A culpa não é sua.

Sua vida não vale menos que a de alguém. Ser da família não dá direito de alguém cometer um crime, só adiciona o peso de ter violado a vida de alguém que não merece isso. Que devia ser querido, cuidado.

E se na Delegacia da Mulher te maltratarem, convencerem do contrário ou insinuarem que você não devia denunciar, denuncie esse delegacia. Anote nomes. Grave atos. Tire fotos.

Publique no seu Facebook, mande para algum lugar, amplifique isso ao máximo, porque grandes mudanças só aconteceram quando foi impossível fingir que não estavam ouvindo.

Ligue para o 180.

E mais uma vez sinta-se abraçada.

3 Comments

  1. Paula, também já senti essa impotência quando se trata de família, de ter que fazer alguém acreditar que uma mulher está falando a verdade e um homem, não. Incentivo todas as mulheres que posso a acreditarem que elas podem… Sei que é só minha palavra, mas gosto de pensar que pode fazer a diferença no dia de alguém! Força e obrigada pelo seu texto.

  2. Nossa, senti como se você estivesse me descrevendo…
    Passei por exatamente as mesmas coisas que você.. Só que nunca tive coragem de dar parte nisso..
    Apanhei quando criança, para meu irmão e ex-padrasto, que também batia na minha mãe.. Chegou a quebrar ossos dela, tudo por conta da “bebida”. Mesmo que eu ache que bebida não muda caráter de ninguém! Showzinhos de violência barata.
    Também tinha medo de ser abandonada, e por isso na escola sempre fui muito anti-social. Tinha pouquíssimos amigos.. (hoje sou completamente o contrário!) andava com o uniforme de inverno no verão.. Pra esconder aqueles malditos hematomas..
    É realmente difícil de conversar sobre essas coisas com as pessoas, é difícil achar pessoas de confiança, que entendem o que você passa/passou.. Só consegui recentemente conversar sobre esses assuntos com meu namorado, que me respeita, e consegue ver em mim, a imagem espelhada de uma mulher guerreira!
    Não sinto orgulho de tudo o que passei, mas tenho honra pela lição que aprendi.
    Hoje meu irmão é outra pessoa e se arrependeu por tudo o que me fez. Já meu ex-padrasto, sumiu do mapa.
    Paz para nossas vidas e que o silêncio nunca reine!

  3. Nunca sofri isso. Mas quase chorei lendo sua história. Não consigo aceitar que MÃES fiquem contra uma filha numa hora dessa. Ela devia ir com a filha na hora, na delegacia. GENTE VAMOS FAZER ALGO. E essa ANTA q te atendeu na delegacia. Que absurdo ficar perguntando isso. Deveria aceitar a denúncia, escrever e pronto. Aposto que ainda hoje é cheio destas antas nas delegacias das mulheres (que pelo visto são pelos homens).

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