Durante um jogo de conferência no último domingo, eu postei um comentário no Twitter que algumas pessoas consideraram antiesportivo. Eu não ligava muito para três jogadores sangrando na quadra, e eu disse que o adversário estava “jogando sujo e podia ‘chupar’ o meu time fazendo o lance livre”. O volume de ódio que eu recebi em resposta foi  assombroso.

Eu rotineiramente lido com tweets que sexualizam, objetificam, insultam, degradam e até me ameaçam fisicamente. Eu já pesquisei – recentemente, na verdade – o que é legalmente acionável em face desse tipo de abuso, e forneci ao Twitter dezenas de relatos sobre o conteúdo horripilante em sua plataforma. Mas esse tsunami em particular de violência de gênero e misoginia inundando meu feed do twitter foi esmagador.

Tweets vieram aparecendo, me chamando de “boceta”, “puta”, “vadia” ou me mandando “ir chupar um pau”. Alguns até ameaçaram me estuprar, ou “anal, anal, anal”.

Eu apaguei meu tweet original depois do jogo, antes de todo o inferno desandar, para  fazer as pazes por alguma ofensa verdadeira que eu pudesse ter cometido ao descrever a jogada como “suja”. (É claro, outras pessoas, incluindo meu tio que é capelão, também expressou o receio de que os atletas se machucassem seriamente. Mas meu tio não foi chamado de “boceta fedida”. Ele não foi poupado por causa da sua profissão; ser um homem fã de esporte é a sua imunidade contra esse abuso.)

Eu amo tanto o March Madness* que, mesmo agora, o que eu realmente quero falar sobre domingo é de como a estratégia não funcionou, na verdade. Eu realmente quero falar sobre um sonho que eu tive recentemente e que me deixou profundamente aflita, em que UConn** nos derrota nas finais, em que nós marcamos somente 49 pontos, pra não dizer a estranheza de meu sonho horrível ser com UConn e não com Wisconsin.

Ao invés disso, eu devo, como uma mulher que um dia foi uma garota, como alguém que usa a internet, como uma cidadã do mundo, me dirigir pessoalmente, espiritualmente, publicamente e até mesmo legalmente, ao perigo concreto que acompanha ser uma mulher e ter uma opinião sobre esportes, ou, francamente, qualquer outra coisa.

O que me aconteceu é a regra social devastadora experimentada por milhões de meninas e mulheres na internet. O assédio virtual usa a mais simples desculpa (ou desculpa nenhuma) para desmembrar nossa personalidade. Meu tweet foi simplesmente o motivador conveniente para a liberação de uma raiva contra as mulheres que está eternamente à espreita. Eu sei que essa experiência é universal, apesar de eu descrever apenas o que aconteceu comigo.

Eu li em uma linguagem vívida as várias maneiras, humilhantes e violentas, em que meus genitais, vagina e ânus, deveriam ser violados, desonrados, explorados e dominados. Ou o autor do tweet ia fazer essas coisas comigo, ou elas eram o que eu merecia. Meu intelecto foi insultado: eu fui chamada de estúpida, uma idiota. Minha idade, aparência e corpo foram atacados. Até minha família entrou no meio das ofensas: Alguém escreveu que minha “avó é assustadora”.

Conforme eu comecei a identificar e afastar essa toxicidade e abuso no Twitter, eu encarei o linchamento padrão que qualquer um (garota ou garoto, homem ou mulher) experimenta quando reclama de ou toma posição contra a misoginia. Por exemplo:

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@Superfluity5:
@AshleyJudd se liberdade é muito difícil pra você, tem outros lugares pra onde você pode ir. #vivalivreoumorra #políciadepalavrasmaldosas

@AshleyJudd:
Fato @JillAMackie Mulheres não podem falar sobre esportes na rede sem receberem ameaças de violência sexual [link] @MicNews

@holdenakridge:
@AshleyJudd @JillAMackie @MicNews — não saia por aí beijando caras velhos e você não vai ter tanta atenção. LIDE COM ISSO.

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@LadySandersfarm:
Querida @AshleyJudd, jeito fácil de evitar pancadas no Twitter é ficar fora do Twitter. É duro e confuso aqui, talvez você não aguente. Bom dia.

@katomart:
@LadySandersfarm @AshleyJudd que diabos é #Violenciadegeneroonline? D: Eu não aguento mais essa besteira feminista chorona. Ajam como adultos.

E por último “Eu assisti Pequeno Milagre. Filme ruim, mas eu consegui ver a Ashley Judd morrer”.

Os assuntos são previsíveis: Eu mesma provoquei isso. Eu mereci. Eu sou reclamona. Eu não sou engraçada. Eu não consigo levar na brincadeira. Existem problemas mais sérios no mundo. O espaço da internet não é real e não merece validade e atenção como um lugar em que pessoas sofrem e recebem abuso. Arranje uma casca mais grossa, querida. Eu sou famosa. É parte dos ossos do meu ofício.

Os temas envolvidos nesse incidente em particular refletem as maneiras universais de que falamos sobre mulheres e garotas. Quando elas são estupradas, nós perguntamos porque elas estavam vestindo aquilo? O que ela estava fazendo naquela vizinhança? Que horas eram? Ela estava bebendo?

Por sorte, outras pessoas ajudaram a perceber e desmontar a lógica distorcida desse incidente:

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@mattspence81:
@danielleelliot Conte a história toda da @AshleyJudd, não concordo com ameaças ou violência, mas tem uma razão para ela ter apagado o tweet. Ela estava errada.

@daniellelliot:
@mattspence81 quantos caras tweetam coisas assim durante o jogo e não recebem essa resposta?

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@AlexandraOstrow:
Estou feliz que a @AshleyJudd se posicionou contra #violênciadegenero, mas alguns zombam dela, citando “problemas maiores”. Violência/ódio de qualquer tipo, está interligada.

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@TomAdelsbach:
@EdPuskas_Vindy @coachkitty @TanyaTales @Film_CrewWB @AshleyJudd Ela não tem caso NENHUM aqui e ela vai descobrir isso logo logo.

@coachkitty:
@TomAdelsbach @EdPuskas_Vindy @TanyaTales @Film_CrewWB @AshleyJudd Senhor Cabeça, qual é sua encrenca aqui exatamente? Que ela está se defendendo?

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@danielleelliot:
@tylerholland33 aguentar besteiras é uma coisa. Os tweets dirigidos a @AshleyJudd não são só simples xingamentos.

@tinekke:
@danielleelliot @AshleyJudd @tylerholland33 tem uma grande diferença entre brincadeira e ameaçar/envergonhar #misoginia #naovoumecalar

Vou encerrar compartilhando porque eu já tinha, antes deste domingo, começado a procurar quais ações legais tomar contra violência de gênero no Twitter.

Eu sou uma sobrevivente de um ataque sexual, estupro e incesto. Eu sou muito abençoada que em 2006, outras sobreviventes bem sucedidas me apresentaram para a recuperação. Eu aproveitei. Minha própria disposição, aliada a um simples conjunto de ferramentas, me empoderaram para realizar a odisseia essencial de vítima vulnerável e indefesa a sobrevivente empoderada. Hoje, nove anos da minha recuperação, eu posso ir adiante e dizer que minha história não é minha história. É algo que um Poder Maior (espiritualidade, pra mim, foi vital no processo de cura) usou para me conceder a graça e o privilégio de ajudar os outros que ainda estão feridos, e talvez oferecer um pouco de educação, consciência e ação ao nosso mundo.

O verão de 1984 foi difícil pra mim. Eu sofri dois estupros de um adulto e molestação sistemática de outro adulto, que ainda tinha outro homem no cômodo assistindo (eu hoje entendo que isso era para garantir que ele tinha uma testemunha, para me sabotar caso eu tentasse reportar o incidente). Eu tenho realizado um trabalho purgativo e catártico nesses atos de violência em particular. A natureza da recuperação de um trauma é que ela pode ser contínua, com níveis mais profundos de cura e liberdade vindo com a incansável persistência de continuar escavando-o.

Este janeiro eu li três coisas diferentes que recentemente dispararam uma memória adicional muito específica dos meus 15 anos – uma tentativa de estupro oral por outro homem adulto. Primeiro, foi anunciada a condenação no caso de estupro de Vanderbilt, que em certos detalhes refletia minhas próprias experiências, especialmente o observador omisso (que, graças a Deus, no caso de Vanderbilit, foi acusado de crime violento). Em segundo lugar, eu li a legislação do Direito para Vítimas de Tráfico Sexual que passou na Câmara dos Deputados. Terceiro, eu reli a definição legal de estupro do Departamento de Justiça e alguns dos debates absurdos sobre ela. Apesar de eu regularmente me engajar nesse tipo de questão, se tornou muito claro pra mim que eu precisava abordar a tentativa de estupro oral que eu havia sofrido; o tempo havia chegado para aquele momento terrível ser tratado como um evento singular de violência do qual eu estava recebendo a oportunidade de me curar num nível mais profundo.

Esse é um dos motivos pelos quais eu acredito que uma profunda dedicação ao auto-cuidado é essencial para a justiça social do feminismo funcionar. Eu sabia exatamente o que fazer e onde ir. Minha mentora estava disponível. Nós imediatamente marcamos uma terapia experimental; eu não precisava, portanto, ir ao centro de ajuda a assédio sexual para triagem. Mas deixe-me dizer: eu sou exatamente como qualquer outra sobrevivente, e os centros de ajuda a assédio sexual do nosso país estão lá para mim, assim como estão para qualquer outra de nós.

Apoiada por amigos e uma psicóloga brilhante, minha terapia foi assombrosa, como todo esse tipo de processo de cura é. Eu senti como se eu tivesse a chance de finalmente falar, lutar e sofrer, e ser consolada e confortada. Mas então, literalmente no dia seguinte, eu recebi um tweet perturbador com uma foto em close do meu rosto atrás de um texto que dizia “mal posso esperar para gozar em toda a sua cara e na sua boca”.

O momento era prudente, e eu sabia que era crime. Era hora de eu chamar a polícia, e dizer para a Twittersfera, “nunca mais”.

Eu passei uma parte valiosa do March Madness escrevendo isto. Eu tenho jogos de eliminatória para me atualizar e adversários para estudar. Então, por enquanto, eu estou deixando com aqueles de vocês que não têm medo de denunciar abusos como os que eu enfrentei, e àqueles de vocês que são aliados corretos e observadores que vão intervir. É com vocês. Continuem fazendo isso – na internet, em casa, no trabalho e em seus corações, onde a coragem para enfrentar isso reside. Nós temos muito o que discutir, e muitas ações a tomar. Juntem-se a mim.

Ashley Judd é uma formada na Universidade Kentucky e na Universidade Harvard Kennedy. Seu artigo “Violência de Gênero: Lei e Justiça Social.” Recebeu o  Dean’s Scholar Award na faculdade de direito de Harvard.

*March Madness: Torneio eliminatório de basquete universitário dos Estados Unidos.

**UConn e Wisconsin: University of Connecticut e Wisconsin, duas das mais fortes universidades a disputar o March Madness

Texto publicado no Mic em 19 de março de 2015.

Tradução feita pelo meu super amigo e jornalista  Guilherme Vasconcellos.
Obrigada!