Além de outras séries de ocupações, sou formanda em história  e apaixonada por antropologia, e por vezes quando me deparo com uma publicação polêmica na internet leio comentários relacionados à ela, para tentar entender um pouco a reação das pessoas e as opiniões que elas expressam diante da falsa sensação de anonimato que a internet nos promove, afinal estamos cada um no seu dispositivo, seja computador, tablet ou celular e nada daquilo pode nos atingir, ledo engano, mas isso é assunto pra outro post.

O caso é que ontem me deparei com uma publicação no perfil do Facebook do Ministério da Saúde onde o órgão divulgava a campanha de vacinação do HPV para meninas entre 9 e 13 anos de idade. Os comentários referentes à publicação me deixaram perplexa.  Algumas mães consideram que a vacina é um incentivo para que as meninas iniciem precocemente sua vida sexual, ou ainda que a mesma não é segura e pode provocar danos à saúde de suas filhas e que incentiva mulheres a não se protegerem durantes as relações sexuais que elas nem deveriam pensar em ter nessa idade.

Com base em pesquisas feitas pelo IBGE, 28% dos jovens  começam a ter contato sexual a partir dos 13 anos, então imunizando jovens até essa faixa etária conseguimos um melhor aproveitamento dos efeitos da vacina se tornando fundamental que nossas jovens estejam imunizadas para evitar assim uma maior propagação do vírus.

E mesmo vacinada a mulher ainda precisaria passar pelos exames Papanicolau e preventivos regularmente.

Segundo o próprio Ministério da Saúde via facebook: “Pelo SUS, os esforços de vacinação estão concentrados nas pré-adolescentes de 9 a 11 anos por ser mais eficaz como estratégia de saúde pública, já que, nessa idade, há maior produção de anticorpos contra o HPV que estão incluídos na vacina e as jovens ainda não iniciaram sua vida sexual e provavelmente não tiveram contato com o vírus.” – A campanha se estende até a idade de 13 anos para quem ainda não tomou as outras doses ou não se imunizou nos anos anteriores.

Segundo dados do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia das Doenças do Papilomavírus Humano há mais de 100 tipos de HPV, dos quais, em torno de 40 são considerados de alto risco oncogênico (com risco de desenvolver câncer). No mundo, os HPVs causam cerca de 250.000 mortes por câncer de colo do útero a cada ano.

Ainda segundo o Instituto não é possível saber ao certo quantas pessoas são infectadas pelo vírus, alguns cálculos relacionam a infecção do vírus à 50% das pessoas sexualmente ativas. e ainda segundo o secretário de Vigilância em Saúde Jarbas Barbosa: “O HPV é uma doença altamente infecciosa, até mais que o HIV. Para estar exposto aos vírus, não precisa necessariamente ter relação sexual com penetração. As pessoas virgens não estão necessariamente protegidas contra o HPV, pois ele pode ser transmitido por todo contato sexual, que envolve sexo oral e carícias”.

Como o vírus pode provocar feridas em outras áreas do corpo uma pessoa pode ser infectada mesmo usando camisinha.  Ou seja, sexo seguro não é suficiente, afinal num relacionamento são duas pessoas envolvidas e ainda que eu saiba por onde andei não tenho como saber por onde meu companheiro(a) andou. Então não seria muito melhor, além de ensinar nossas filhas e filhos como se protegerem de outras DST’s que ainda não possuem vacina e de uma gravidez indesejada, garantir a imunização de um vírus de potencial letal?

Sobre os possíveis efeitos colaterais da vacina, primeiramente a mesma é oferecida em mais de 50 países, como Canadá e Estados Unidos, e é recomendada pela OMS.

E segundo a dra. Vivian Lida Avelino-Silva, médica infectologista do Hospital Sírio-Libanês, “ao analisarmos com cuidado os efeitos adversos relatados, constatamos que nenhum pôde ser atribuído à vacina contra o HPV. Ou seja, trata-se de uma associação ao acaso, uma coincidência que sempre acontece quando um grande número de pessoas recebe uma vacina nova em um curto período de tempo”.

E conforme o dr. Marco Sáfadi: “Não há até o momento nenhum estudo que tenha associado de maneira inequívoca a vacina de HPV a algum evento adverso grave. Como todo e qualquer produto imunobiológico (vacinas, medicamentos, etc.), é claro que  eventualmente pode-se observar efeitos adversos. Após esses anos todos de uso da vacina, (criada na Austrália em 2006) os dados de segurança obtidos pelos sistemas de vigilância dos países que a introduziram nos seus programas mostram que a vacina contra HPV é segura, com a ocorrência de eventos adversos, na sua maioria leves, como dor no local da aplicação, inchaço e eritema. Em raros casos, ela pode ocasionar dor de cabeça, febre de 38ºC ou síncope (desmaios)”, afirma o pediatra.

Mas, em setembro de 2014, após tomarem a segunda dose da vacina 11 adolescentes de um colégio em Bertioga apresentaram graves reações, três delas precisaram ser internadas apresentando fortes dores e paralisia de alguns membros do corpo. Após avaliação médica  a explicação mais plausível para as autoridades de saúde é que ocorreu uma espécie de fenômeno de sugestão coletiva. “O quadro das 11 adolescentes pode ser avaliado como uma síndrome de estresse pós-injeção, algo que acontece também com outras vacinas”, garantiu o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa.  Uma das adolescentes apresentou um quadro mais grave com a permanência dos sintomas por mais de três dias, neste caso especificamente foi diagnosticada uma doença auto-imune que teria reagido a vacina e desencadeado a grave reação apresentada.

É possível ainda encontrar na internet sites que indicam o uso do cogumelo shitake para cura do HPV, existem pesquisas sobre o tema, a mais importante foi executada pela Universidade do Texas,  no estudo participaram dez mulheres com HPV que tomaram um composto de um extrato do cogumelo uma vez por dia durante seis meses por via oral. Cinco destas mulheres conseguiram eliminar o vírus – três com erradicação completa depois da interrupção do tratamento. O estudo ressalta ainda que até ao momento, não há um tratamento eficaz para o HPV associado à 99% dos casos de câncer do colo do útero e vários outros tipos de câncer como de boca, reto e próstata.

Informação faz toda diferença na vida de nossos filhos, e na nossa também, é preciso buscar por fontes diversas e as mais idôneas possíveis, a vacina do HPV não é obrigatória mas se mostra uma grande aliada na luta por uma melhor qualidade de vida da mulher. Em tempos de internet muito do que se propaga é falso e com propósitos obscuros.

Vacinar nossas filhas não significa aprovar ou incentivar promiscuidade precoce, os dados apresentados pelas principais organizações de saúde do mundo aconselham a vacinação e estar imunizada contra o HPV não retira a responsabilidade de nós, pais e mães, ensinarmos nossos filhos e filhas sobre sexo seguro e responsável. É preciso nesse caminho assumir algo muito que pode ser doloroso para muitos de nós: nossos filhos vão transar, provavelmente muito antes do que gostaríamos, possivelmente enquanto acreditamos que eles estão fazendo trabalho de escola às duas da tarde, nossa função é garantir que antes de tudo eles estejam seguros e bem informados evitando doenças que podem ser evitadas, gestações indesejadas e o abuso emocional muitas vezes intrínsecos às relações juvenis.

Quanto aos riscos de efeitos colaterais cabe a cada família analisar informações e estatísticas disponíveis e decidir o que é melhor para os seus filhos. Na minha casa prevalece o ditado preferido da minha avó: É melhor prevenir do que remediar.

11041459_925287154198004_735559033_nMicaela Garcia tem  25 anos,  é doida por doces e polêmicas, mãe da Sofia e do Francisco/ou Mariana. Historiadora por paixão e quase formação, professora, pesquisadora e escritora. Complicada e perfeitinha.