Como o feminismo transformou minha forma de viver a maternidade

Faz algumas semanas que um amigo me chamou para fazer uma crítica construtiva ao meu comportamento nas redes sociais; segundo ele, estava muito chata, radical, parecia que havia me tornado uma feminazi, um apelido dado às feministas radicais por pessoas que visivelmente não entendem o que é o nazismo e o movimento feminista.

Acontece amigo, que você está correto, apesar de não ser nem de longe radical, sou feminista sim.

E é normal ouvir que você está sendo chata quando está lutando por seus direitos. O machismo é tão normalizado, tão cotidiano para todos, que quando você começa a apontar os erros, falhas e a discutir velhos comportamentos, isso incomoda.
Incomoda porque quando alguém diz que seu comportamento é machista e preconceituoso, você não só está sendo informado de algo novo, como está sendo convidado a pensar se vai continuar perpetuando este sistema. Muitos escolhem que sim, vão perpetuar ou fingir que não existe, mas uma parcela cada vez maior tem feito o caminho inverso: voltar à raiz e discutir como estamos vivendo.

E este foi o meu caso, porque não faz muito tempo que a falta de informação me fazia acreditar que estava tudo bem sobre como fui e sou tratada. Realmente acreditava que existia mulher machista, como se ela não fosse vítima de um sistema que transformou o horror numa realidade comum, aceitável.

Quando comecei a me questionar sobre o meu papel na sociedade como mulher, em seguida veio as perguntas sobre a maternidade.
E a primeira grande dor foi admitir que o que aconteceu comigo e minha filha foi errado. Foi uma violência. Que a culpa não foi minha.

Engravidei aos 15 anos de idade da minha primeira filha, Laura. Depois da recusa de minha família, fui morar com meu noivo e mantive um medo de ir para a escola. Evitei ao máximo, até que minha barriga ficou visível. Foram nove meses de vergonha, humilhação e reprovação.
Tinha medo de sair na rua sozinha e as pessoas acreditarem que era mãe solteira, uma promíscua. O estresse foi tanto que foram inúmeras as vezes que fui ao hospital passando mal, tendo que tomar remédios para dormir.

A primeira vez que ouvi que “Deveria ter pensado antes de engravidar se não queria sofrer” foi com dois meses de gravidez, da minha mãe. Ela me pintou um cenário onde iria deixar de estudar, viver, iria ser absurdamente infeliz num casamento sem sentido com um bebê que choraria 24 horas por dia.
O que ninguém me contou é que este cenário existe, mas o único motivo de se perpetuar na vida de tantas jovens são as poucas opções oferecidas. Logo quando uma adolescente engravida, o peso de todos os atos recaí apenas sobre ela, como se bebês fossem gerados sozinhos e gravidez fosse motivo de vergonha. Punição.

Depois de nove meses vendo e vivendo essa realidade, o melhor dia de minha vida me foi tirado.
Cheguei no hospital com contrações leves e depois de um exame de toque absurdamente doloroso, fui informada que estava tudo bem e iria para um quarto esperar as contrações ficarem mais fortes.
Fiquei cinco horas naquele quarto, presa num soro que deixou minhas dores milhares de vezes pior, ouvindo piadas das enfermeiras. Sozinha, porque as regras do hospital não permitiam companhia, tive crises de pânico até que meu médico chegou, às sete da manhã, para me informar que seria submetida a uma cesárea de emergência.

Fiquei seis anos sem contar essa história e ainda não consigo reproduzir todos os detalhes mais de uma vez, mas o que importa para este texto é que as violências que somos submetidas todos os dias não devem ser normalizadas. Não está tudo bem. Não importa a idade, cor, condição social ou qualquer fator que usem como justificativa, nada concede direito ao sistema de saúde ou seus profissionais de violentarem jovens por serem isso: jovens. Inseguras, com medo,assustadas, apavoradas com a culpa que nos jogam.

Uma semana depois do nascimento de minha filha, ela faleceu. Devido ao sofrimento fetal causado no trabalho de parto, ela aspirou todo o mecônio, que tornou impossível sua respiração.
Aos dezesseis anos estava enterrando minha filha ao som de que a culpa era minha. Que foi melhor assim, imagine como seria minha vida se ela estivesse viva. Deus sabe o que faz.

Tudo isso me levou a um caso de depressão fortíssimo que durou alguns anos. Mas o que ninguém ia imaginar era que o sofrimento, a dor da injustiça, não iria criar um ressentimento, mas uma força que não sabia existir em mim.

A liberdade de ser mulher que conhece seu espaço nesse mundo, que sabe quem é, o que faz e o que quer ser. A mãe que acredita que sua missão é também empoderar a filha para que o mundo fique cada vez mais repleto de mulheres que conhecem sua força, se tornou quem sou, não o que sempre disseram que seria.

Minha segunda filha, Helena, tem atualmente quase dois anos e me pertence garantir que o mundo onde ela irá viver seja melhor. Não é sobre ambições megalomânicas, mas sobre a luta por direitos fundamentais. Sobre discutir o papel da mulher na sociedade, sobre a ocupação da mulher trans em seu espaço, sobre porque estamos tão amarrados em preconceitos religiosos e morais.

Porque nosso corpo e decisões não nos pertence em sua totalidade. Ainda.

A maternidade foi ganhando uma nova cor com o tempo e fui percebendo que nosso velho conceito de mãe que sofre no paraíso era mais um endossamento para problemas que deviam ser discutidos, transformados e banidos. Que o pai existe e seu papel deve ser cobrado; pois cheque no fim do mês e finais de semanas não resumem a necessidade de uma criança.

Apesar de ter dias que minha vontade é apenas abandonar tudo, porque ler os absurdos tem sido cada dia mais desafiante, nunca fui tão feliz.
Alcançar a igualdade dentro de minha casa, em meu casamento, o poder de sonhar com o impossível e ter uma pequena mãozinha próxima a minha, nunca me tirou tantos sorrisos.

Finalmente pude deixar minha filha ir em paz, não para um lugar cheio de anjos ou luzes, mas para o lugar onde mora a justiça daqueles que lutam por seus direitos. Para o lugar onde habita a consciência de uma realidade onde não exista violência e dor.

Então amigo, sim, sou feminista, e vou continuar lutando. E talvez isso seja meio impossível para você, mas nós, mulheres, unidas, fazemos absurdos.

Nós mudamos o mundo.

5 Comments

  1. lindo! To contigo e não abro! viva a sororidade!

  2. lindo depoimento!! simples assim! ( eu disse simples!? quem dera…) parabéns pela pessoa que és! grande abraço

  3. Lindo!! Parabéns!

  4. Uau.
    Estou perplexa, empolgada e amando esse site.

  5. Engravidei com 20 anos e sentia vergonha, chorei com suas palavras quando descreveu os sentimentos de sua primeira gravidez.. assim que me senti e ainda nao me libertei dessa dor

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