Month: março 2015

“Mas ele é da família”

Tem uma rua na cidade de Pindamonhangaba que sempre me traz tristes lembranças. São várias na verdade, mas essa é uma daquelas que toca uma parte muito sensível ainda, porque um dia, ali, me sentei com outras mulheres e esperei minha vez de denunciar uma violência. Um lugar que nunca imaginamos ocupar, até que um dia o rosto está sangrando e alma dói ainda mais, e temos que encarar outros olhos, que geralmente nos acusam ou ignoram a dor, que não estão dispostos a ajudar.

Então quando li o texto no Lugar de Mulher, falando sobre a ineficiência da Delegacia da Mulher, senti uma centelha de coragem de contar algo que me aconteceu já faz quase cinco anos.

Acho que quando falamos sobre velhos fantasmas, e principalmente sobre aqueles que sabemos que também fazem parte da realidade de outras pessoas, é como se isso pudesse trazer força de alguma forma. Existe algo de acolhedor de saber que alguém passou também por aquilo e está bem, e falou sobre isso. Existe uma luz no fim do túnel. Uma solução para não pular da janela. Isso me aconteceu com várias violências, já que muitas vezes parece que minha vida foi a narrativa da história de um carrinho bate-bate que escolheu seu alvo. Mas a verdade é que essa é história semelhante de tantas outras meninas, mulheres, que também foram ceifadas de seus direitos, de respeito e de ocupar seu lugar numa sociedade que vê tais agressões de forma tão comum.

Então, quando um dia subi os degraus da Delegacia da Mulher para prestar queixa contra o meu irmão, já havia chorado tudo que podia ao longo do caminho. Foi algo que me foi impedido por anos, por minha mãe, por meus tios, porque estava proibida de falar sobre, de denunciar as violências que sofria em minha casa.  Porque eles também me agrediam, porque eles deviam estar imunes da justiça por possuírem o mesmo sangue das minhas veias.

Mas a verdade é que esperamos sempre mais da família. Sempre sonhei com o dia que meus progenitores e familiares iriam realmente fazer aquilo que estavam na posição de fazer: me proteger. Mas numa sequência, descobri que nem sempre a família te apoia e te cerca de cuidados quando o mundo já é tão cruel, às vezes, de uma forma mais banal do que acreditamos, é a família que te priva de segurança, de amor, de respeito.

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Ashley Judd: Esqueça seu time, sua violência online contra meninas e mulheres é que pode ir se foder

Durante um jogo de conferência no último domingo, eu postei um comentário no Twitter que algumas pessoas consideraram antiesportivo. Eu não ligava muito para três jogadores sangrando na quadra, e eu disse que o adversário estava “jogando sujo e podia ‘chupar’ o meu time fazendo o lance livre”. O volume de ódio que eu recebi em resposta foi  assombroso.

Eu rotineiramente lido com tweets que sexualizam, objetificam, insultam, degradam e até me ameaçam fisicamente. Eu já pesquisei – recentemente, na verdade – o que é legalmente acionável em face desse tipo de abuso, e forneci ao Twitter dezenas de relatos sobre o conteúdo horripilante em sua plataforma. Mas esse tsunami em particular de violência de gênero e misoginia inundando meu feed do twitter foi esmagador.

Tweets vieram aparecendo, me chamando de “boceta”, “puta”, “vadia” ou me mandando “ir chupar um pau”. Alguns até ameaçaram me estuprar, ou “anal, anal, anal”.

Eu apaguei meu tweet original depois do jogo, antes de todo o inferno desandar, para  fazer as pazes por alguma ofensa verdadeira que eu pudesse ter cometido ao descrever a jogada como “suja”. (É claro, outras pessoas, incluindo meu tio que é capelão, também expressou o receio de que os atletas se machucassem seriamente. Mas meu tio não foi chamado de “boceta fedida”. Ele não foi poupado por causa da sua profissão; ser um homem fã de esporte é a sua imunidade contra esse abuso.)

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Páscoa é celebração, não consumismo

O sonho do retorno à uma Páscoa com partilha

Para cada povo a Páscoa possuí um significado diferente. Para os católicos, e grande parte dos Latinos, representa a Ressurreição de Cristo. O nome veio da Páscoa Judaica, que comemora o Êxodo, quando os hebreus fugiram da escravidão no Egito pelo conhecido Moisés e seu caminho pelo mar.

Mas antes de alguma religião incorporar ou ressignificar a comemoração, antigos povos pela Ásia e Europa já comemoravam a chegada da primavera presenteando pessoas queridas com ovos. Assim nasceu a tradição de se pintar e adornar ovos para Ostera, Deusa da Primavera.

O coelho surgiu com o encontro das antigas tradições egípcias, que acreditavam que o coelho representava renascimento. Com o sua conhecida capacidade de reprodução, alguns povos também acreditavam que representava a fertilidade. E quando os alemães embarcaram para a América, trouxeram com eles a tradição do Coelho da Páscoa, que hoje é representado como conhecemos: trazendo ovos para celebrar a festa do renascimento e fertilidade.

Mas porque uma história tão linda, cheia de simbolismos sensíveis, se transformou na festa da Ovostentação?

Colocaram marcas, inflacionaram o preço e transformaram uma linda festa em algo que faz girar uma indústria que só nos mostra não dar a mínima para palavras como renascimento, fertilidade, primavera e união. Criaram produtos sexistas, preenchidos de presentes para alavancar desenhos e marcas. Não inserem a cultura do compartilhamento, mas o do extensivo e abusivo corredor de ovos sem luz no fim do túnel.

Então, sabendo disso, nós proclamamos aberto o nosso Sorteio de Páscoa por uma páscoa sem consumismo e incentivando #comprodequemfaz.

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O psicodélico mundo das mães que não dormem

Era um dia normal, tirando o fato de que fazia três meses que não dormia duas horas seguidas.
Me deitei como sempre às 23 horas, e Helena dormia. E é deste ponto que começa a aventura.
Acordei às oito da manhã sem a calça do pijama, com a camiseta suja de geleia e leite escorrendo pelo pescoço. Estava sentada na beirada da cama segurando um bebê imaginário e balançando.
Não lembro absolutamente nada naquela noite: quantas vezes acordei, o que fiz, o que comi, porque acordei com a sensação de que havia alucinado.

Então imaginem como me senti quando um dia na fila da loja de roupas no shopping, vi uma moça com seu bebê no colo, chorando. Algumas lágrimas escorriam do canto do olho, ela segurava dois pares de roupa de criança e estava visivelmente esgotada. Quando encostei no braço dela e disse que um dia estive numa situação parecida, ela apenas desatou a chorar na loja e nós ficamos lá, chorando, com um bebê, sacolas e um monte de gente olhando.

Ninguém sabe dessa história porque ela nunca havia me autorizado a conta-la. Nem meu marido ou familiares sabem que nos sentamos depois numa sorveteria e ela me contou que fazia seis meses que não dormia, que o bebê só queria mamar e colo. Que ela se sentia drenada, exausta, que vivia irritada e não sentia que havia solução ou que poderia falar sobre isso francamente. Porque, veja bem, ela amava o filho, amava ser mãe e planejou engravidar por anos, mas nada, nada nesse mundo poderia tê-la preparado para o desafio que seria ficar tantas noites sem dormir.

E eu sei exatamente como é isso e tenho certeza que outros milhares de mães também sabem.

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Vacinar ou não vacinar? Eis a questão

Além de outras séries de ocupações, sou formanda em história  e apaixonada por antropologia, e por vezes quando me deparo com uma publicação polêmica na internet leio comentários relacionados à ela, para tentar entender um pouco a reação das pessoas e as opiniões que elas expressam diante da falsa sensação de anonimato que a internet nos promove, afinal estamos cada um no seu dispositivo, seja computador, tablet ou celular e nada daquilo pode nos atingir, ledo engano, mas isso é assunto pra outro post.

O caso é que ontem me deparei com uma publicação no perfil do Facebook do Ministério da Saúde onde o órgão divulgava a campanha de vacinação do HPV para meninas entre 9 e 13 anos de idade. Os comentários referentes à publicação me deixaram perplexa.  Algumas mães consideram que a vacina é um incentivo para que as meninas iniciem precocemente sua vida sexual, ou ainda que a mesma não é segura e pode provocar danos à saúde de suas filhas e que incentiva mulheres a não se protegerem durantes as relações sexuais que elas nem deveriam pensar em ter nessa idade.

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7 livros infantis para discutir estereótipos em contos de fadas

1Nada, nada, me incomoda mais que o velho formato das histórias infantis. Apesar de ter crescido com as produções da Disney, Branca de Neve deixou de me convencer lá pelos quinze anos, quando percebi que a fórmula criava ideais e ilusões equivocadas sobre como visualizamos o amor romântico e as interações sociais.

Como uma das metas dos textos sobre conteúdo literário e audiovisual para crianças é estabelecer uma crítica ao que está sendo produzido para nossos filhos, não consegui me isentar de abrir o diálogo sobre os contos de fadas. Pequenas histórias de Princesas trancadas em castelos, que anseiam encontrar a a salvação por seu Príncipe. Sempre delicadas, brancas, fofas e indefesas.

Não é de todo ruim, muitos deles discutem assuntos como bondade, humildade e tolerância, mas com uma velha fórmula que cria esteriótipos perigosos. Mais uma vez vou repetir a indicação do meu TED preferido até agora, onde a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, fala sobre como pode ser prejudicial a história única, onde somos apresentados a uma única versão dos fatos, geralmente por um telespectador que não possuí conhecimento de causa, e termina por gerar esteriótipos perigosos.

Então declaro a inauguração informal da série de listas que exigem #conteúdodequalidade, porque nossas crianças merecem mais. Merecem diversidade, exemplos positivos e uma fonte de entretenimento comprometido com a qualidade, não o silêncio. Merecem menos abuso da publicidade infantil, menos sorrisos e filosofias que escondem o interesse de quantificar e vender a infância.

Então a nova lista vai ser sobre dicas de livros infantis que quebrem esse esteriótipo ou insiram a discussão sobre os velho molde dos contos de fadas, tanto para os pais, quanto para os filhos.

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Não faça guerra, faça [9 receitas para] piquenique!

E você achou que nesse blog só ia ter texto profundo? Ledo engano. Sempre que posso arranjar uma desculpa para fazer listas, aproveito e ainda coloco comida no meio.

Como nasci e cresci no interior de São Paulo, ainda me assusto em perceber como os hábitos de pessoas que moram em cidade maiores estão enjaulados em edifícios, seja na própria área de recreação de prédios ou shoppings. Apesar de compreender a questão da violência, não parece muito natural habitar uma cidade sem ocupa-la; conhecer seus pontos históricos ou aproveitar a sombra de alguma árvore.

Talvez o maior ponto de decisão de não cogitarmos morar numa cidade maior seja o conhecimento de que seremos mastigados pela rotina caótica das “cidades grandes”.

Mas mesmo para pessoas ocupadas, piquenique sempre é algo bom, já que com as receitas certas é fácil preparar algum lanche saudável e ainda passar o dia na beira de um rio ou parque. E sem desculpas, existe algum lugar verde, nem que seja a praça do bairro, perto de você.

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Como o feminismo transformou minha forma de viver a maternidade

Faz algumas semanas que um amigo me chamou para fazer uma crítica construtiva ao meu comportamento nas redes sociais; segundo ele, estava muito chata, radical, parecia que havia me tornado uma feminazi, um apelido dado às feministas radicais por pessoas que visivelmente não entendem o que é o nazismo e o movimento feminista.

Acontece amigo, que você está correto, apesar de não ser nem de longe radical, sou feminista sim.

E é normal ouvir que você está sendo chata quando está lutando por seus direitos. O machismo é tão normalizado, tão cotidiano para todos, que quando você começa a apontar os erros, falhas e a discutir velhos comportamentos, isso incomoda.
Incomoda porque quando alguém diz que seu comportamento é machista e preconceituoso, você não só está sendo informado de algo novo, como está sendo convidado a pensar se vai continuar perpetuando este sistema. Muitos escolhem que sim, vão perpetuar ou fingir que não existe, mas uma parcela cada vez maior tem feito o caminho inverso: voltar à raiz e discutir como estamos vivendo.

E este foi o meu caso, porque não faz muito tempo que a falta de informação me fazia acreditar que estava tudo bem sobre como fui e sou tratada. Realmente acreditava que existia mulher machista, como se ela não fosse vítima de um sistema que transformou o horror numa realidade comum, aceitável.

Quando comecei a me questionar sobre o meu papel na sociedade como mulher, em seguida veio as perguntas sobre a maternidade.
E a primeira grande dor foi admitir que o que aconteceu comigo e minha filha foi errado. Foi uma violência. Que a culpa não foi minha.

Engravidei aos 15 anos de idade da minha primeira filha, Laura. Depois da recusa de minha família, fui morar com meu noivo e mantive um medo de ir para a escola. Evitei ao máximo, até que minha barriga ficou visível. Foram nove meses de vergonha, humilhação e reprovação.
Tinha medo de sair na rua sozinha e as pessoas acreditarem que era mãe solteira, uma promíscua. O estresse foi tanto que foram inúmeras as vezes que fui ao hospital passando mal, tendo que tomar remédios para dormir.

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10 desenhos infantis inteligentes e que promovem a igualdade

Helena tem um ano e oito meses, um bebê, então ainda não vivo naquela linha do pavor que muitos pais se encontram lá pelos 3 anos de idade: o amor pelos desenhos e filmes. Ela gosta muito, dança, espera, é fofo de se ver, mas ainda não chegamos ao ponto dela pedir produtos da franquia ou querer ver X coisa em Y momento.

Não acredito que TV, tablet e celular são os vilões, acho que com parcimônia são benéficos, na verdade. Meu problema está no conteúdo. Porque produzem material tão ruim para crianças?? Como pessoas que trabalham com o público infantil podem caracteriza-los com tão baixa expectativa? Crianças merecem conteúdo de qualidade. Desenhos e filmes igualitários, longe de sexismo, que desenvolvam a criatividade e relações positivas.

Precisamos mudar a forma como crianças consomem desenhos, porque se os adultos de hoje estão criando o mundo azul e rosa que acreditam ser correto: para tudo! Muda tudo!

Pensando nisso, fiz uma lista de 10 desenhos que procurei muito sobre e vemos aqui em casa. Muitos são disponibilizados no Youtube [ <3 ] e no Netflix, que aliás, é a melhor coisa que você vai contratar na vida.

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