Todo mundo é boa mãe até ter filhos

Cena clássica de shopping: você está andando com as pernas bem torneadas que Deus te deu, quando se depara com a cena lastimável da instituição falida que é a família. A mãe está meio descontrolada, aparentando sinais contundentes de choque por terror, o pai olha para os lados, buscando um possível olhar de repulsa ou quem sabe a resposta para como educar aquele pequeno ser. Por fim, o óbvio, o horror, aquilo que seu olhar se distanciou no primeiro momento por instinto de preservação: a criança jogada no chão, roxa, babando, com o pescoço virado no melhor estilo Exorcista. Geralmente está gritando “Eu quero” ou “Não, não vou”.

E tu, um ser centrado, maduro, no completo controle de sua vida pensa [e um dia irá verbalizar] “Nossa, meu filho jamais fará isso!” ou quem sabe “Isso é falta de pulso filme”.

Te digo uma coisa caro leitor, o único punho que conhecerás será o da vida, regiamente plantado entre sua raiz capilar e nariz.

Sim, já pensei isso. Sim, já verbalizei. Sim, adorava tirar vantagem das situações onde mães passavam por isso, era uma forma de me autoafirmar como a ótima mãe que seria. Mas o tempo passa, aquele lindo bebê que você achava que dava trabalho descobre que limite existe. E ele existe para ser arduamente testado. Exaustivamente flexionado. Integralmente esmurrado para dentro da sua realidade.

Todos sabem que junto com o Boi Tatá, Cuca e Saci Pererê, as crianças povoam o folclore brasileiro no papel de aterrorizar. A criança do shopping poderia ser tema de filme de terror, porque é isso que somos ensinados desde cedo: crianças são o terror. Ou melhor, não tenha filhos! Choro, gastos exorbitantes de dinheiro, peito rachado, parto traumático, casamento falido… Filhos é o oposto de sucesso profissional, financeiro e pessoal.

Hoje em dia, sempre que vejo essa cena, minha vontade é ir até a mãe, abraça-la e chorar junto “Eu sei, querida, dá vontade de pular da janela… Mas olha… Isso… Chora… Solta essa angústia… Eu sei, também já fui aquela moça ali da esquina da loja de sapatos”.

Afirmo com total convicção que para mães mais felizes é necessário uma sociedade que pare de elevar a maternidade ao ato divino de ser feliz num mundo cheio de algodão doce. Dizem que a maternidade é linda, cheia de coisas maravilhosas, ao mesmo tempo que uma outra parcela prega a demonização da infância. Além de ser uma baita contradição, colocam as mães e pais num lugar onde sofrer é um ato de felicidade.

Me fala, quando você quebrou o braço: foi legal?
Quando bateu o carro e teve que gastar o dinheiro das férias: foi o auge da sua realização?

Então deixe as mães e pais serem infelizes. O velho “Aceita que dói menos” é a máxima realidade.
Essa cultura semeou pais que mentem sobre seus real estado de espirito e assim se sentem cada vez mais oprimidos. Como se fosse errado não querer chorar junto com o filho quando ele tenta pela milésima vez pegar o sapato de 400 reais da loja ou joga o prato de comida no colo da visita. É normal. É fase. Vai passar. Mas enquanto está acontecendo é horrível.

A forma como aquele pai e mãe irá educar o filho é realmente problema dele, mas é problema nosso o que fazemos com a instituição “criar filhos”.

Nunca na minha vida soube tanto a diferença entre teoria e prática. Na teoria sei que minha filha está testando os limites quando tenta enfiar o dedo na tomada pela quinquagésima vez no dia, mas no número cinquenta um, mim, que já começa a conjugar errado verbo, adulta e extremamente conhecedora da teoria, solta um grito de “Você vai tomar choque para aprender menina!”. Vou lá e tiro, mas na minha imaginação, foi diferente.

Por observação [no espelho] e dos casais que vejo, os primeiros cinco anos da criança é meio… contundente. Se houver casamento no meio, chamaria de homicídio culposo, sem intenção de matar, mas que mesmo assim esfaqueia o controle no peito.

Seu filho é o anjinho que você pôs no mundo e provavelmente aquele texto rosa, linda, diiiivinoh, estava encobrindo os fatos. Crianças não são ruins, eles só estão descobrindo realmente – realmente mesmo – o mundo e com isso vem todos os testes e experimentos perigosos que você vai eventualmente não permitir. Ensinar a controlar os rompantes de frustração e raiva e desenhar formas menos perigosas de se divertir. A infância é mesmo linda, principalmente se você souber entender os momentos que a chuva caí torrencialmente sobre o paraíso.

É normal. Podemos falar sobre isso. Você pode se sentir infeliz. Você pode chorar.

Vem cá, vamos nos abraçar na porta do shopping.

7 Comments

  1. Uau, ri horrores com esse texto, demais! A melhor coisa é saber que não estamos sozinhos, tb tem sido muito difícil aqui conciliar teoria e prática, a gente lê, compreende o processo todo que desencadeia vários comportamentos, mas tem hora que não dá mesmo, um grito sai, uma ignorada depois de 300 mamãe/segundo acontece, e quando vc recobra a “maternidade consciente” , você pensa: “ah eu deveria ter baixado, olhado nos olhos e falado….”

    ôh vida!!!!

  2. Sua forma de escrever, dentre tantos artigos que já li sobre maternidade, é de longe o melhor. O mais real. Obrigado por isso! Obrigado por todas as palavras que você usou, eu as usaria se tivesse o mesmo talento pra escrita, obrigado por escrever tão bem sobre isso.

  3. Olha, simplesmente de arrepiar! Incrível! Que texto… Parabéns por captar tão profundamente e sinceramente a alma de nós, pobres papais.

  4. Gostei do texto, mas mesmo assim devo comentar que se a educação que você der ao seu filho for bastante firme ele não vai fazer pirraça no shopping.
    Eu lembro que toda vez que eu ia pegar pirraça só olhava pra minha mãe e me passava a vontade.
    Não é questão nem mesmo de ser uma mãe monstro, mas de ser firme. E se isso não funcionar não o leve no shopping até que ele aprenda a não fazer pirraça por exemplo levando em lugares apropriados pra criança. Até porque se vermos bem até pessoas adultas fazem “pirraça” quando estão em lugares chatos ou não apropriados pra eles. Se pensarmos bem a única diferença que tem é que Eu adulta sei me controlar e sei que meu dever é estar ali, e a Criança invés não consegue controlar então o primeiro motivo que ela tiver pra pegar pirraça ela vai pegar.
    Mas mesmo assim sou de acordo que a maternidade não é fácil e sim existe momentos em que você não aguenta mais, isso também vai variar entre uma mãe que tem um grau de suportação a outra que não tem a mínima paciência. Beijo a todas as mães

  5. Melhor texto da vida. Resumo dos últimos 3 anos.

  6. Voce escreve muito bem,mas convenhamos que tem mães, bemmmmm devagar,lidei com várias mães totalmente alienadas,essas tem flilhos bem chatinhos..e grosseiros.

  7. Tá tenso!!!! Tive gêmeos e não tenho mais paz. Sou mesmo infeliz. Me arrependo amargamente de ter engravidado.

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