Sofia fica com o pai – Porque ser mãe não é possuir os filhos

Quando decidi romper um relacionamento de quase oito anos veio o principal questionamento: E a Sofia? Minha filha já tinha seis anos e nunca viveu longe dos pais, tinha casa, quintal, cachorro e bicicleta. Sempre foi uma garota feliz, comunicativa e ativa.

Após a separação, não tinha condições de assumir a responsabilidade pelos cuidados dela, não ganhava o suficiente nem mesmo para me sustentar, quiçá a uma criança em pleno crescimento. Trabalhava em horário comercial e ela estudava meio período.

Ainda não concluí a faculdade, então constantemente não poderia estar com ela à noite para poder terminar meus estudos. Além disso, o que pesou muito, veio o principal: o relacionamento da Sofia com o pai era maravilhoso, ela era simplesmente apaixonada por ele e ele por ela. Ele sempre foi um pai dedicado e presente, modelo qual eu ficaria contente em ver todo homem seguir. Era presente na escola, acompanhava o desenvolvimento dela em todos os aspectos, era tão mãe quanto eu, se não mais.

Nós dois desempenhávamos o mesmo papel na educação dela, éramos presentes de modo igual e a amávamos na mesma intensidade. Ele trabalhava em casa e já cuidava dela sozinho nos momentos em que eu não podia estar.

A decisão da separação partiu de mim, e senti que era no minimo cruel se, além de tudo, e conhecendo as possibilidades de cada um como conhecia, eu a afastasse dele.

Entre análises e choros veio a decisão: Sofia fica com o pai.

Chorei mais do que em qualquer momento da minha vida, me senti culpada muitas vezes e por outras me senti uma mãe ruim, como se abrir mão de sua presença cotidiana significasse que me importava menos com ela, pois eu deveria fazer de tudo para tê-la comigo, não? Não. Minha função primordial como mãe não é tê-la sob minhas asas, é garantir que ela tenha a melhor qualidade de vida e como pude perceber nos meses seguintes isso ela tinha com o pai. Quando eu entendi que o que me fazia mal era muito mais a pressão social do que o medo de estar longe dela a situação começou a se reverter. Afinal eu não estaria longe dela, nos falamos por telefone, eu a visito sempre e em breve ela começa a vir passar o fim de semana comigo na minha nova casa.

Na época ela chorou, demorou um pouco para que compreendesse o que significava minha separação do pai. Mas por fim entendeu que tudo o que vinha acontecendo e mudado nos últimos meses era em nome da felicidade de todos, da minha,de seu pai e a dela.

Já faz alguns meses que moramos separadas e perdi coisas preciosas nesse período. Ganhei a experiência da abnegação genuína e do que o amor de uma mãe por sua filha é capaz de supor e suportar.

Amo minha filha como nunca amei outro ser humano, e justamente por isso é que não poderia e não posso me fixar num egoísmo desumano de querê-la para mim. Seu pai lhe tem tanto amor e cuidado quanto eu, e independente de qual fosse a decisão alguém iria sofrer, e muito.

Decidi que tinha melhor estabilidade para lidar com essa separação do que os dois.

Não me sinto menos mãe porque não a acompanho diariamente, me sinto mais mãe do que era antes, tão mãe quanto a mulher que decide pausar a vida profissional e acadêmica em nome dos filhos.

Pelo que vejo até aqui eu não estava errada, e cada vez que falo com minha filha e ela encerra a ligação com: você é a mãe mais maravilhosa do universo; eu tenho certeza que fiz a coisa certa.

3 Comments

  1. Parabéns pela sua maturidade.
    Se eu me separasse, por mim eu sairia de casa – que é minha- e deixaria ele aqui com os dois, faria uma compartilhada eu acho…quem gosta de casa grande, jardim e tal é ele. Eu quero praticidade, tempo p mim e meus filhos felizes. Mas nosso pensamento ainda é visto como doido. A “norma” é a mulher ficar, mesmo sem poder. Inclusive tem homem que ia ficar desconfortável com essa decisão.

  2. Parabéns pela ardo-a escolha, mostrou com exemplo que filho não é coisa para possuir e sim alma livre que necessita de cuidado e amor e isso não pode se minado por uma sociedade hipócrita… Parabéns por demonstrar o real significado do Amor Incondicional…

  3. Elisa Rodrigues

    17 de maio de 2016 at 20:01

    Lindo e emocionante texto! Realmente, não possuimos filhos. E temos que lutar pelo que é melhor para eles e não para as regras obtusas da nossa comunidade…
    Acabei de conhecer seu site e seus textos, mas já virei fã!

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