Eu tenho medo de dormir.

E esse é um fato que não costumo contar à milhares de pessoas, porque aqueles que deitam a cabeça no travesseiro e dormem profundamente dificilmente conseguem compreender o que é o pavor de quando seus olhos começam a fechar de exaustão. Esse medo foi cultivado por umas série de acontecimentos e um deles foi a morte da minha primeira filha.

Quando cheguei no velório, no dia 10 de dezembro de 2008, expulsei toda as pessoas da sala por alguns minutos. Não havia pego minha filha no colo viva e aqueles seriam meus últimos instantes com ela. Tudo havia sido causado por uma série de descaso e violência e jurei que nunca mais iria engravidar. Não queria ter filhos num mundo com pessoas tão podres.

Não queria perpetuar uma espécie que mata e tortura pela cor, idade, opção sexual, religião ou pelo simples fato de não concordar com algo.

E vivi assim durante quatro anos, até que um dia o exame de sangue apontou que estava grávida. Isso aconteceu no dia 13 de dezembro de 2012 e entrei em pânico. E sim, havia a possibilidade de poder não seguir à diante com a gestação, mas a decisão de continuar não foi baseada em nenhum aspecto religioso ou moral, foi unicamente pela convicção de que ali morava a chance de um mundo melhor.

Constantemente me pego olhando Helena dormir, com um pavor crescente na garganta. Ainda pequena, com um ano e meio, ela sempre pega alguma bolsa e “tchau mãe”. Saí andando e acenando com a mão, até virar a esquina do corredor e voltar correndo. Um dia minha filha dirá isso e não voltará, irá viver a vida com sua dose de alegrias e tristezas.

Não posso garantir que jamais irá se machucar ou que um dia não irá derramar lágrimas amargas, mas tenho certeza que irá ver um pôr do sol no fim de julho de arrancar suspiros, sei que irá amar alguém com todas as forças e torço todos os dias para que consiga lhe passar o que é empatia.

Criamos filhos com a esperança de um mundo melhor, onde exista mais tolerância e amor. Somos guiados pela fé constante que apesar de tudo, viver ainda é bom. Que gerar vida e criar um ser humano tem propósito. Criamos filhos para um mundo melhor, que será moldado pela força positiva de suas ações.

Nada me garante que um dia não irei receber um telefonema que irá avisar que minha filha já não respira. O medo sempre irá me perseguir, mas posso caminhar com ela e sempre oferecer a mão por estradas sinuosas. Nada me garante que um dia não vou receber um telefone me avisando que minha filha feriu alguém, mas posso me esforçar ao máximo para passar o que é bondade, tolerância e responsabilidade.

Não importa qual seja o destino, todos os seres humanos que caminham na Terra já foram um bebê frágil e necessitado de atenção. Já caiu de bunda no chão quando foi tentar andar e falou todas as palavras erradas antes de conseguir pronunciar sua primeira frase. Todos nós somos ensinados. Ninguém nasce intolerante, isso é plantado aos poucos.

O único motivo que posso afirmar com total tranquilidade para se ter filhos num mundo como nosso é que todo ciclo deve ser quebrado. Se você quer um mundo melhor: seja essa mudança e crie outro ser humano para ser o bem que você quer ao mundo. Ensine outras pessoas a serem bondosas e tolerantes.

Pegue uma caneta e rabisque em algum lugar um poema que conte como é bom fazer o bem. Olhe para o céu e veja naquelas cores um bom motivo para existir. Chore e supere a dor, porque não existe nada mais belo que participar dessa vastidão.