Quando criança meus pais me explicaram primeiramente que uma cegonha tinha me deixado em casa. Parece absurdo, mas essa foi a explicação que tive durante um tempo. Logo depois, enquanto esperava meu pediatra, havia na parede um quadro de um lindo bebê usando uma faixa florida na cabeça, saindo de um lindo e gigante repolho. Claro que questionei aquilo e novamente me foi dada outra explicação para de onde vêm os bebês: repolhos.

Demorou mais alguns anos até a explicação da sementinha que fica no útero da mamãe encontrar a semente que vem do papai e até esse dia chegar a certeza era de que repolhos eram mágicos. E por mais tempo ainda, até Helena nascer, achei que a frase de que quando nasce um bebê, nasce uma mãe, era a coisa mais linda do mundo. Até que também notei a falha nessa lógica que coloca mulheres como seres super preparados para a maternidade. Só que não.

Quem nunca viu um quadro de mães com cabelos lustrosos, exímias donas de casa, mães aplicadas, profissionais charmosas e que ainda dormem com o rosto hidratado e cútis impecável. Tais mulheres certamente saíram daquele mesmo repolho mágico e estão nos mesmos livros que os lindos unicórnios, porque nunca vi alguém assim e tenho medo de encontrar na fila do pão.

Helena nasceu numa noite fria e de chuva e enquanto esperava ela no quarto do hospital fui ficando em choque. Quando finalmente vi aquele bebê pequeno, comendo o próprio cobertor e completamente sem jeito, levei-a ao peito para se alimentar. Naquela primeira fisgada de dor da amamentação, soube que não estava nascendo com ela nenhuma mãe e que seria um longo caminho de autoconhecimento.

Apesar de toda alegria e felicidade, não vi ali um momento rosa como em tantos textos li. Vi semanas de superação, de dor, de desafios, noites sem dormir, dias se adaptando e com isso o amor que já estava ali, cresceu, ganhou força e me fez mãe.

E a melhor resposta que tenho para isso é a quem me colocou nesse mundo, minha mãe. Ela não queria engravidar aos 15 anos do meu irmão, mas a minha gravidez foi muito esperada, como uma esperança de estabelecer o casamento. Fui uma criança absurdamente mimada num lar onde a maternidade era exigida com perfeição e a paternidade apenas garantia o sustento da família. E agora, mais velha e mãe, entendo como a maternidade compulsória foi forçada garganta abaixo da minha mãe e ela se agarrou com todas as forças nisso e não houve um momento de adaptação.

Nós seres humanos, mulheres, somos programadas para se adaptar. Está no nosso sangue, em cada célula de nosso corpo, mas jamais fomos feitas para se reconstruir e ser uma pessoa completamente diferente em poucos meses e dias.

Mães sentem sono, ficam tristes, sentem um cansaço enorme. Falhas, dúvidas e estão num processo incessável de aprendizado e superação. E temos todo dia que ouvir que não existe essa pressão em nossas cabeças: quem pariu que crie sozinha.

Isolam o bem estar de um ser humano a uma única pessoa, colocando o pai num papel secundário e toda a família como meros expectadores dos dramas familiares alheio.

Maternidade é uma construção, uma das mais complexas que um ser humano pode passar, porque vai interagir com um tipo de amor tão visceral que pode destruir na mesma proporção que garante a vida. Quando dizem que uma mãe daria a vida por um filho, jamais iria discordar, mas essa mesma abnegação pode transformar uma mulher em cinzas.

Vi gerações de mulheres conformadas e que abriram mão de tudo que gostavam por filhos, casamento, pela casa e pelo status mágico de que o ápice da vida de uma mulher está num sofá, amamentando, com um bolo sendo assado no forno. Sendo que não, isso não funciona para todas, nenhum tipo de pressão social funciona para nenhuma individuo com sonhos e personalidade única.

Vi por anos minha mãe tomando todas as decisões para o meu bem e isso me causava dor, porque eram noites dela chorando, gritando, frustrada por não seguir seus sonhos, por não conseguir aceitar a mãe que ela podia ser, mas querendo pertencer ao mundo das mães perfeitas, sem conseguir, nadando num mar que sempre morre na praia.

Então hoje, quando leio a velha frase do nascimento de uma mãe, faço questão de reescrever: quando um bebê nasce, nasce o maior amor do mundo. Nasce a possibilidade, nasce sonhos e o caminhar de mais um destino que tomará suas decisões. Com ele, aos poucos, caminha uma mulher que irá ser mãe.

E quando vemos, estamos lá, levantando para ver se aquele pequeno ser está respirando, porque o mundo precisa que aquele coração continue batendo.