Month: janeiro 2015

Todo mundo é boa mãe até ter filhos

Cena clássica de shopping: você está andando com as pernas bem torneadas que Deus te deu, quando se depara com a cena lastimável da instituição falida que é a família. A mãe está meio descontrolada, aparentando sinais contundentes de choque por terror, o pai olha para os lados, buscando um possível olhar de repulsa ou quem sabe a resposta para como educar aquele pequeno ser. Por fim, o óbvio, o horror, aquilo que seu olhar se distanciou no primeiro momento por instinto de preservação: a criança jogada no chão, roxa, babando, com o pescoço virado no melhor estilo Exorcista. Geralmente está gritando “Eu quero” ou “Não, não vou”.

E tu, um ser centrado, maduro, no completo controle de sua vida pensa [e um dia irá verbalizar] “Nossa, meu filho jamais fará isso!” ou quem sabe “Isso é falta de pulso filme”.

Te digo uma coisa caro leitor, o único punho que conhecerás será o da vida, regiamente plantado entre sua raiz capilar e nariz.

Sim, já pensei isso. Sim, já verbalizei. Sim, adorava tirar vantagem das situações onde mães passavam por isso, era uma forma de me autoafirmar como a ótima mãe que seria. Mas o tempo passa, aquele lindo bebê que você achava que dava trabalho descobre que limite existe. E ele existe para ser arduamente testado. Exaustivamente flexionado. Integralmente esmurrado para dentro da sua realidade.

Todos sabem que junto com o Boi Tatá, Cuca e Saci Pererê, as crianças povoam o folclore brasileiro no papel de aterrorizar. A criança do shopping poderia ser tema de filme de terror, porque é isso que somos ensinados desde cedo: crianças são o terror. Ou melhor, não tenha filhos! Choro, gastos exorbitantes de dinheiro, peito rachado, parto traumático, casamento falido… Filhos é o oposto de sucesso profissional, financeiro e pessoal.

Hoje em dia, sempre que vejo essa cena, minha vontade é ir até a mãe, abraça-la e chorar junto “Eu sei, querida, dá vontade de pular da janela… Mas olha… Isso… Chora… Solta essa angústia… Eu sei, também já fui aquela moça ali da esquina da loja de sapatos”.

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Sofia fica com o pai – Porque ser mãe não é possuir os filhos

Quando decidi romper um relacionamento de quase oito anos veio o principal questionamento: E a Sofia? Minha filha já tinha seis anos e nunca viveu longe dos pais, tinha casa, quintal, cachorro e bicicleta. Sempre foi uma garota feliz, comunicativa e ativa.

Após a separação, não tinha condições de assumir a responsabilidade pelos cuidados dela, não ganhava o suficiente nem mesmo para me sustentar, quiçá a uma criança em pleno crescimento. Trabalhava em horário comercial e ela estudava meio período.

Ainda não concluí a faculdade, então constantemente não poderia estar com ela à noite para poder terminar meus estudos. Além disso, o que pesou muito, veio o principal: o relacionamento da Sofia com o pai era maravilhoso, ela era simplesmente apaixonada por ele e ele por ela. Ele sempre foi um pai dedicado e presente, modelo qual eu ficaria contente em ver todo homem seguir. Era presente na escola, acompanhava o desenvolvimento dela em todos os aspectos, era tão mãe quanto eu, se não mais.

Nós dois desempenhávamos o mesmo papel na educação dela, éramos presentes de modo igual e a amávamos na mesma intensidade. Ele trabalhava em casa e já cuidava dela sozinho nos momentos em que eu não podia estar.

A decisão da separação partiu de mim, e senti que era no minimo cruel se, além de tudo, e conhecendo as possibilidades de cada um como conhecia, eu a afastasse dele.

Entre análises e choros veio a decisão: Sofia fica com o pai.

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Porque ter filhos num mundo como o nosso

Eu tenho medo de dormir.

E esse é um fato que não costumo contar à milhares de pessoas, porque aqueles que deitam a cabeça no travesseiro e dormem profundamente dificilmente conseguem compreender o que é o pavor de quando seus olhos começam a fechar de exaustão. Esse medo foi cultivado por umas série de acontecimentos e um deles foi a morte da minha primeira filha.

Quando cheguei no velório, no dia 10 de dezembro de 2008, expulsei toda as pessoas da sala por alguns minutos. Não havia pego minha filha no colo viva e aqueles seriam meus últimos instantes com ela. Tudo havia sido causado por uma série de descaso e violência e jurei que nunca mais iria engravidar. Não queria ter filhos num mundo com pessoas tão podres.

Não queria perpetuar uma espécie que mata e tortura pela cor, idade, opção sexual, religião ou pelo simples fato de não concordar com algo.

E vivi assim durante quatro anos, até que um dia o exame de sangue apontou que estava grávida. Isso aconteceu no dia 13 de dezembro de 2012 e entrei em pânico. E sim, havia a possibilidade de poder não seguir à diante com a gestação, mas a decisão de continuar não foi baseada em nenhum aspecto religioso ou moral, foi unicamente pela convicção de que ali morava a chance de um mundo melhor.

Constantemente me pego olhando Helena dormir, com um pavor crescente na garganta. Ainda pequena, com um ano e meio, ela sempre pega alguma bolsa e “tchau mãe”. Saí andando e acenando com a mão, até virar a esquina do corredor e voltar correndo. Um dia minha filha dirá isso e não voltará, irá viver a vida com sua dose de alegrias e tristezas.

Não posso garantir que jamais irá se machucar ou que um dia não irá derramar lágrimas amargas, mas tenho certeza que irá ver um pôr do sol no fim de julho de arrancar suspiros, sei que irá amar alguém com todas as forças e torço todos os dias para que consiga lhe passar o que é empatia.

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De onde nascem as mães

Quando criança meus pais me explicaram primeiramente que uma cegonha tinha me deixado em casa. Parece absurdo, mas essa foi a explicação que tive durante um tempo. Logo depois, enquanto esperava meu pediatra, havia na parede um quadro de um lindo bebê usando uma faixa florida na cabeça, saindo de um lindo e gigante repolho. Claro que questionei aquilo e novamente me foi dada outra explicação para de onde vêm os bebês: repolhos.

Demorou mais alguns anos até a explicação da sementinha que fica no útero da mamãe encontrar a semente que vem do papai e até esse dia chegar a certeza era de que repolhos eram mágicos. E por mais tempo ainda, até Helena nascer, achei que a frase de que quando nasce um bebê, nasce uma mãe, era a coisa mais linda do mundo. Até que também notei a falha nessa lógica que coloca mulheres como seres super preparados para a maternidade. Só que não.

Quem nunca viu um quadro de mães com cabelos lustrosos, exímias donas de casa, mães aplicadas, profissionais charmosas e que ainda dormem com o rosto hidratado e cútis impecável. Tais mulheres certamente saíram daquele mesmo repolho mágico e estão nos mesmos livros que os lindos unicórnios, porque nunca vi alguém assim e tenho medo de encontrar na fila do pão.

Helena nasceu numa noite fria e de chuva e enquanto esperava ela no quarto do hospital fui ficando em choque. Quando finalmente vi aquele bebê pequeno, comendo o próprio cobertor e completamente sem jeito, levei-a ao peito para se alimentar. Naquela primeira fisgada de dor da amamentação, soube que não estava nascendo com ela nenhuma mãe e que seria um longo caminho de autoconhecimento.

Apesar de toda alegria e felicidade, não vi ali um momento rosa como em tantos textos li. Vi semanas de superação, de dor, de desafios, noites sem dormir, dias se adaptando e com isso o amor que já estava ali, cresceu, ganhou força e me fez mãe.

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